HORA BOLAS

Corrupção é que é bom

04 | 06 | 2018   23.18H
João Malheiro

A prática é muito antiga. Num país com uma monarquia esclerosada de séculos, uma república curta e jamais apartada de vícios, uma ditadura fascista propícia ao compadrio, uma democracia recente que fez emergir um segmento exasperante de novo-riquismo, tudo conjugado, persiste, em Portugal, essa propensão secular de obediência, essa vocação secular de podriqueira, essa disposição secular de rapinice.

O futebol alegra o povo, a bola tem o sortilégio do melhor entretenimento, do melhor devaneio. Num histórico centenário, tem feito prodígios, sobretudo no último meio século. Grandes gestas, verdadeiras heroicidades. Assombrosos clubes, colossais jogadores, enormes treinadores, fantásticas massas adeptas.

E o resto? A cultura e a verdade desportivas? "Roubado é que é bom", dizia-me um reputado técnico cá da praça, há duas ou três décadas. A compadrice, a ilicitude, o chico-espertismo vingaram e fizeram escola. Num regime de impunidade, o futebol português tem vivido (é a outra face, face negra da moeda) de facilitismos, de amiguismos, de arranjismos.

O processo Apito Dourado foi um excelente ensejo para acabar com a promiscuidade, de resto praticada, até de forma mais escandalosa, durante muitos anos antes. O que aconteceu? Pouco mais do que nada, do que rigorosamente nada. Consequência? Ímpetos perversos não tiveram travão, antes extensão.

Ninguém quis ser virgem na matéria, quis ser matéria na virgem. A virgem, claro, é a bola. Os dirigentes, com raras exceções, são a matéria que a infringem, que a desrespeitam, qua a violam. A virgem, a pobre da virgem, ademais perante tantos acometedores, irresistiu e continua a irresistir. O povo, esse, aplaude vitórias e chora derrotas tantas vezes manchadas com a cor da embustice, da tabidez, da corrupção.

© Destak
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