COLUNA VERTICAL

O sombrio amanhã!

13 | 06 | 2018   23.51H
José Luís Seixas
Há muito que se sabe que em economia não há milagres. Ou há solidez endógena ou circunstâncias conjunturais. Tal como na política não há santos milagreiros, embora, mas muito raramente, emerjam homens providenciais. Os últimos números conhecidos substantivam ambas as constatações. Em Portugal não se verificou nenhum milagre económico. Apenas a feliz combinação do crescimento exponencial do turismo, muito à custa de uma anormal redução de competitividade internacional em razão das crises do sul, com o aumento da construção e dos valores do imobiliário nas grandes cidades, em razão do investimento estrangeiro e dos “vistos gold”. É certo que, para tanto, não foi indiferente o aumento das exportações de produtos com valor acrescentado (fenómeno que eclodiu ainda no decurso do mandato de Passos Coelho). E, depois, os efeitos positivos dos resultados tranquilizadores das contas públicas decorrentes de uma generalizada política de cativações de despesa, com consequências dramáticas em alguns sectores como na saúde, o que é conhecido e indiscutível. Porém, os factores externos são hoje imprevisíveis à excepção de uma queda no crescimento das economias europeias. O imobiliário tende a estagnar e há quem preveja como próximo o estrepitoso fim da bolha criada em Lisboa e Porto com consequências ainda mais devastadoras do que as sentidas na década anterior. O poder de compra não cresce na proporção do expectado e, nalguns casos, vem registando preocupantes reduções. A Europa e o Euro estão como estão. O proteccionismo americano vai fazer-nos mossa. A instabilidade mundial não nos passa ao lado. E a alavanca turística está dependente de tantas contingências que ninguém de bom senso a poderá tomar por perene. Ou seja, nem a bonomia de Costa, nem o optimismo sereno e tranquilizador de Marcelo, nem o sorriso de Centeno nos garantem confiança e nos libertam de inquietações. Evidentemente que, por enquanto, as lutas sociais são mais para marcar terreno. E que a esquerda da esquerda não quer eleições. Mas estes epifenómenos não asseguram nem estabilidade nem futuro. Não passam de um penso rápido que estancam uma expetante hemorragia. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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