HORA BOLAS

O delírio do poder

17 | 06 | 2018   19.18H
João Malheiro

Bruno de Carvalho teve tudo marcar a história do Sporting pela positiva, quiçá alcandorar-se a um dos lugares mais destacados na já vasta galeria presidencial. Herdou um clube estrançado e devolveu-lhe dignidade competitiva, ainda que também à custa de um magistério jamais ausente de algazarra e celeuma.

Temos estado na presença de um homem com uma personalidade muito singular, algo irreversível, mesmo potenciado com o excessivo mediatismo. Ele tem, goste-se ou não, um amor doentio ao Sporting e a si próprio. Sufragado nas urnas ou nas assembleias magnas com votações esmagadoras, o líder do Sporting nunca foi capaz de assumir uma postura institucional e, sempre ao encontro dos seus traços distintivos, sentiu-se ainda mais legitimado. Nos últimos tempos, sobretudo nessa fase, antes de eclodir o dramático episódio de Alcochete, aumentou o som da verborreia, aumentou o dom do narcisismo, aumentou o tom da provocação.

O tique, o sestro da prepotência, num clube com grande aptidão para a pluralidade, mesmo que tantas vezes nefasta, tem-lhe sido fatal. Avolumou adversários, mas pior, muito pior, tem assistido a uma debandada beluína dos seus companheiros de rota, arriscando-se a ficar isolado e a passar à história como o exterminador de Alvalade.

Por ironia, pela ironia das ironias, num ano em que o Sporting vence todas as modalidades de pavilhão (o futsal ainda está em curso, mas o triunfo é provável), conquista a Taça da Liga em futebol e só uma semana horrenda e masoquista obstou a que garantisse a Taça de Portugal e o segundo lugar no Campeonato com entrada garantida na Champions.

Pois é. Churchill dizia “o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. No caso de Bruno de Carvalho, o poder deslumbra, o poder absoluto deslumbra absolutamente.

© Destak
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