COLUNA VERTICAL

Considerações de uma velha toga

19 | 06 | 2018   23.42H
José Luís Seixas
Sou advogado há 34 anos. Debutei no foro da minha terra. Em Bragança. Sob a égide do meu Pai. O advogado mais completo que conheci. E conheci muitos. Mesmo muitos. Os ventos de então empurraram-me para Lisboa. Aqui cresci profissionalmente com muitas histórias, muitas alegrias e não poucas amarguras, ansiedades e tristezas. Tive uma única toga oferecida por um grande amigo e produto da destreza do senhor Garrido, alfaiate local, que não contou com a endógena tendência para uma paulatina proeminência abdominal. Depois, e já lá vão tantos e tantos anos, socorri-me da toga que a minha Mãe nunca utilizou e a que o meu Pai deu lustro. Ainda a uso, desgastada dos 70 anos de existência e dos mais de 60 de ininterrupto uso. Conheci, pois, uma profissão de elite, de grande exigência intelectual e científica, de uma severidade deontológica ímpar, de um império moral que poucos se atreviam a beliscar. A Ordem dos Advogados impunha-se ao Estado, derrubava poderes, condicionava a legislação. E hoje? Bastonários remunerados e aquietados, advogados comentadores de processos patrocinados por outros advogados, propaganda feita de visibilidade mediática sem olhar ao rigor e sem atentar no dever de colaborar com a Justiça e não perverter e condicionar o juízo dos tribunais. As grandes superfícies completaram o ramalhete. Tudo passou a valer. O lobby, a captura do poder legislativo, a promoção comercial. Por tudo isto, as televisões enchem-se de advogados comentadores e de comentadores advogados. Sobre tudo e a propósito de tudo. Abstenho-me de discorrer mais sobre a situação a que a advocacia chegou. Em homenagem a muitos Colegas e pelo orgulho que tenho nos meus companheiros de trabalho. Porque são refratários a esta onda perversa. Uso já muito pouco a toga da minha Mãe apoderada pelo meu Pai. Acho que ela não merecia estar associada a esta nova profissão que pouco ou nada tem a ver com aquela que tanto viveu. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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