HORA BOLAS

Portugal sem bola

08 | 07 | 2018   23.33H
João Malheiro

Campeão europeu e com o sortilégio de Cristiano Ronaldo, Portugal baixou prematuramente a bandeira no Mundial da Rússia? Talvez sim, mas só para os mais desprevenidos ou para os mais gulosos da ilusão. Afinal, o grande torneio até viu a campeã Alemanha despedir-se na fase de grupos, a Espanha e a Argentina na mesma ocasião que o nosso selecionado, o Brasil logo de seguida.

Mais do que o abandono precoce, a turma nacional foi muito deficitária em termos exibicionais. Com a Espanha até certificou, com Marrocos assustou, com o Irão preocupou, com o Uruguai desapontou. Exceção feita ao derradeiro embate (por ilogismo, marcado pela única de derrota na prova), Portugal andou sempre atrás do jogo, incapaz de impor a sua matriz, desenhar o seu molde.

Se a cultura do risco esteve sempre ausente, a tão esperada posse de bola, marca distintiva do futebol lusitano durante décadas, não passou de um logro. Surpresa? De certa forma, mas se nos recordarmos do Europeu de França, tão bem sucedido, ainda que não menos resultadista, nem tanto assim. Parece que estamos num novo estádio de procedimento competitivo. Devido aos mandamentos de Fernando Santos? Devido à presença tutelar de Cristiano Ronaldo? Devido a uma legião de jogadores que assimilaram outras culturas? O mais provável é que seja um concerto desses fatores e de alguns outros de menor relevância.

Uma coisa é certa, acabaram as vitórias morais que fizeram história no nosso futebol. Estamos na era das vitórias imorais? A ideia encerra exagero, mas um mínimo de aproximação à verdade. Nem tem sido só Portugal a mudar, o futebol mudou mesmo, nenhuma equipa parece escapar ao novo preceito, austero e totalitário. A virtude exibicional, agora como nunca, não é ditada pelos mimos na bola, antes pelos donativos dos golos.

© Destak
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