COLUNA VERTICAL

Evidências e lugares comuns

17 | 07 | 2018   19.56H
José Luís Seixas
A vida é um instante que ou se aproveita ou se consome como um fósforo. O que consubstancia um paradoxo porque, na realidade, a vida é tudo. Menos no valor que lhe atribuímos e na forma como a prezamos. Não, não falo dos novos cultos do belo e saudável, ou do saudavelmente belo. Só é vegetariano quem pode. Os novos paradigmas dos hábitos saudáveis propiciam muito negócio nessa tirania da bem parecença e da censura social do imperfeito. Na outra parte do mundo, ou até no nosso mundo, a alegria faz-se com a singularidade de poder ser vida e viver a vida. De poder ser e, estando, sentir nas coisas mais simples a bênção de Deus. Na malga de arroz, na chuva que limpa e irriga a terra, na paz de poder estar com a família ou com a comunidade. Ver os campos de refugiados e os sorrisos de tantos perante as tamanhas incertezas com que se confrontam é um ensinamento notável para quantos de nós nos lamentamos tendo verdadeiramente tudo. Tenho conhecido, ao longo da minha vida, muitos casos de infortúnio e de desesperança. Vi pessoas morrer. E senti-me morrer um pouco com elas. Mas depois chega a luz que nos lembra o que há de mais básico: estar vivo; o sol que nasce em cada manhã; conseguir rir e chorar; amar e sentir-se amado; gozar os prazeres que a vida proporciona. Sabendo que serão efémeros. Como a própria vida. Mas a lição dos que vivem situações inenarráveis de guerra e de sofrimento deve valorizar o que temos. E deve fazer-nos perceber que esta coisa a que chamamos paz e estabilidade é tão precária que quando se rompe nos submerge em enormes tragédias. Até por esta visão egocêntrica deveríamos cultivar uma maior solidariedade com os refugiados. E pensar no que, acaso acontecesse connosco, gostaríamos que nos fizessem. Não seguramente o desprezo que hoje sentem desta Europa desumanizada. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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