Novos ventos de Espanha?

25 | 07 | 2018   00.22H
José Luís Seixas
Conheço pouco do passado do novo Presidente do Partido Popular espanhol, Pablo Casado. Ignoro a veracidade das questões curriculares que lhe imputam e que, a confirmarem-se, o macularão indelevelmente. Ouvi, porém, o seu pronunciamento político. E, seja o adventício líder um fogo fátuo ou um corredor de fundo, é muito interessante analisar a estratégia que adoptou e o discurso que personifica. Desde logo, desalinhou do pragmatismo liberal de Rajoy e da generalidade da direita democrática europeia, intimidada (ou aderente) pelos novos modismos do egocentrismo infrene. Infirmou o pendor nacionalista e monárquico que está na génese da Alianza Popular de Fraga. Recentrou socialmente o Partido numa lógica da defesa da economia social de mercado e das reservas ao liberalismo que o dominara. Repristinou a visão social cristã (ou até democrata-cristã), o humanismo personalista e a família como objecto determinante e primacial da acção política. Propôs a derrogação da lei do aborto, da lei do casamento homossexual e anunciou a oposição à eutanásia. Entendeu que, assim, reconquistaria uma faixa eleitoral importante que se esconde com medo dos censores do politicamente correcto. O certo é que as respostas que se ouviram eram as esperadas: apodaram-no de retrógrado, passadista, ultrapassado, ultramontano. Eis o conceito de democracia e de liberdade de opinião que une a direita liberal e a esquerda libertária. Tudo o que pode perturbar os seus axiomas feitos do relativismo moral e do hedonismo primário é democraticamente inaceitável. Como dizia há tempos um amigo meu, o pensamento dominante já não consente a discordância. Tolera-a como uma curiosidade antropológica. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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