COLUNA VERTICAL

Quem com ferros mata...

30 | 10 | 2018   17.27H
José Luís Seixas

A vitória de Jair Bolsonaro era previsível. Não foi a espúria consequência da iliteracia ou da manipulação do povo ignaro. Foi o resultado dos votos das classes médias que residem nas grandes cidades. Não foi um fenómeno isolado e ocasional. É mais profundo. Tende a alastrar-se, embora com outros e, porventura, mais preocupantes cambiantes. Não falo das facetas burlescas de Trump. Recordo sim o que se passa na Europa com o crescimento infrene dos partidos e forças nacionalistas e algumas claramente protofascistas. Já nem a Península Ibérica – que se pensava protegida deste movimento – escapa, com o crescimento do VOX em Espanha, liderado por um ex-dirigente popular radicalizado, Santiago Abascal. Tudo isto tem uma causa: a incontinência e cupidez de uma esquerda libertária que, acolitada por algum yupismo de direita, criou uma retórica, a vendeu e, com a colaboração omissiva e pusilânime de muitos, a consagrou como politicamente correcta. Esta esquerda não percebeu que a ruptura com a moral social dominante, enraizada nas sociedades ocidentais como um factor identitário, traria sempre um custo. A desestruturação da sociedade, com os valores invertidos, hiperbolizando a extravagância e menosprezando o que era a normalidade, excedendo o mero reconhecimento de direitos, mas caminhando por um discurso apologético na senda do comando moral, não se faz gratuitamente. Ora, esta linguagem que hoje aparece como mandatória, transpôs o âmbito da extrema esquerda para invadir o centro e, de alguma forma, ser replicada pela própria direita, com medo de conotações de reacionarismo. O desconforto foi crescendo e deu campo e voz a movimentos emergentes que repristinam, com exagero proporcional, os valores nacionalistas e a ordem social subvertida... Foi a extrema esquerda relativista e libertária que os fez ressurgir. Ou, utilizando uma expressão popular, foi ela que os pariu!

O autor escreve segundo a antiga ortografia

© Destak
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