INSTANTES

Quem me terá levado a alma?

19 | 11 | 2018   22.43H
Luisa Castel-Branco

Se virem por aí alguém a correr com uma alma nos abraços, agarrem esse ladrão! Gritem! Chamem a polícia! Por favor! Alguém me rouba a alma e eu não sei quem foi. Não dei por isso. Não senti nada e agora aqui estou. Com um buraco tão grande dentro de mim, como se me tivessem levado as entranhas, como se me tivessem levado a mim toda!

Já tentei gritar, mas o som não sai. Já tentei pedir ajuda, mas não consigo formar as palavras. Há outra cá em casa que é igual a mim e sai para ir trabalhar e volta. Mas também ela não diz nada e não me ouve quando lhe grito e pergunto: -Quem és tu se eu estou aqui presa? Quem és tu que andas a fingir que eu estou viva?

Mas ela não me ouve e senta-se no sofá a olhar para a televisão desligada e ali fica como um autómato até sair no outro dia. Quem me terá levado a alma? Era nela que eu guardava todos os meus tesouros! Os risos dos meus filhos, os joelhos esfolados, os homens que não amei, aqueles que amei, as lágrimas que chorei e os risos e gargalhadas que fingi sempre, mas sempre.

Agora sou órfã de tudo. De memórias, de saudades, de ventos que me acariciaram o rosto, estou certa que tal aconteceu, de momentos meigos e ternos e doces, que devo ter tido. Acho eu.

Agarrem esse malandro que me roubou! Digam-lhe que eu perdoo tudo, mas que me devolva a mim mesma, a quem eu era. Coitado dele ou dela, julgaram roubar algo de jeito, algo de raro e fantástico e afinal de contas, levaram uma alma tão velha, tão usada! Que antes desta vida tive outras e nenhuma me fez feliz.

© Destak
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