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COLUNA VERTICAL

O meu Menino Jesus

18 | 12 | 2018   21.53H
José Luís Seixas
Recordo-me tão bem do Natal da minha infância. Do Presépio e do sorriso sereno desenhado na velhinha imagem do Menino Jesus. Dos sabores, da alegria, do mistério. Daquela atmosfera mágica que me envolvia e emocionava. Das cores cintilantes de um Mundo que se trajava de harmonia e fraternidade. Do melhor de nós próprios que emergia espontaneamente. Recordo-me das sobremesas do jantar de Consoada, cuja sapidez mitigava o sacrifício das couves, do polvo e do bacalhau cozidos. Das canções entoadas pelo meu Pai (nem sempre com a requerida afinação), empolgado pela espiritualidade que pairava. Adormecia a correr, esperando a manhã e, com ela, os presentes que o Menino Jesus me deixava no sapatinho, cuidado e engraxado, que colocara junto do Presépio. Cá fora, as ruas estavam frias e vazias. Sem iluminações feéricas, nem espaventosos letreiros de Boas Festas. Parecia que um elo invisível ligava todas as casas e todas as famílias num só momento e num mesmo propósito. Eu acreditava no Menino Jesus. Acreditava no poder ilimitado daquela Criança envolta em pano cru que me olhava, sorrindo, deitado numa pobre manjedoura. Sabia-A generosa, com um enorme sentido de justiça e uma imensa capacidade de perdão. O meu Natal era tempo de encantamento e de deslumbre. É tão grande a diferença entre o Natal do Menino Jesus e o Natal dos Pais Natal. É a diferença entre o sentimento e o objecto, entre a afectividade e a aquisição, entre a generosidade e o interesse. É, sobretudo, a diferença entre o despojamento da verdade anunciada e a maior operação de marketing de cada ano que passa. Continuo a acreditar no Menino Jesus. Lá porei o sapatinho (hoje já sapato) à espera do presente, confiando na generosidade daquela Criança envolta em pano cru que me olha, sorrindo, deitado numa pobre manjedoura. Os meus votos de um Santo Natal. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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