COLUNA VERTICAL

A imbecilidade é um nojo

27 | 01 | 2019   23.10H
João Malheiro

Reivindico-me da cultura, da tolerância democrática. Mais agora, meio século vivido, do que na minha fase adolescente, no começo da fascinante vida adulta. Confesso, sem pruridos, sem uredos, que tive a minha etapa sectária, algo intolerante, pouca propensão para opiniões diferentes, demasiado emproado por aquelas que sustentava serem verdades patentes, irrefutáveis. Na política, no futebol, noutras áreas socialmente implicativas.

Com o avanço dos anos, com maior e mais proveitosa vivência, fui mudando a esteira, alterando o padrão. Ideais por mais arreigados não dispensam o contraditório, a flegma, a impassibilidade. Os nossos interlocutores, desde que de forma fundamentada, inteligente, azevieira, merecem crédito, justificam tolerância. Também réplica? Por que não? Mas sempre com respeito, com esguardo, com elevação.

Só que, também à medida que o tempo passa, a minha embirração pela idiotice, pela asneira, pelo disparate, aumenta de forma proporcional. Como deixou escrito Alexandre Dumas, prefiro os canalhas aos imbecis; os canalhas, pelo menos, descansam de vez em quando.

Com a profusão das redes sociais, o panorama é decadente, cada vez mais derribado. Toda a cavalgadura opina, toda a besta palpita. O nojo está massificado. E então? “A vantagem de sermos inteligentes é que podemos fingir que somos imbecis; enquanto o contrário é completamente impossível”. Pactuo, em absoluto, com Woody Allen. Chamem-me, alguns, talvez muitos, imbecil. Eu até gosto, eu até desejo, eu até anseio. Quanto mais não seja, porque mexo com eles, com os seus destemperos asquerosos, com as suas parvoeiras nojentas, com tantas insipiências repugnantes.

Eles, essas azémolas, quase sempre anónimas ou pseudónimas, não valem a coisa das mães que os pariram ao mundo.

© Destak
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