HORA BOLAS

Ufana por Chalana

10 | 02 | 2019   18.22H
João Malheiro

Ela tinha 21 anos, até era simpatizante do FC Porto. Minha namorada, mais tarde minha mulher. Estávamos em 1984, o Benfica jogava na Póvoa de Varzim. “Só vou ao jogo para ver o Chalana”, disse-me de forma judiciosa. “Claro que ele vai jogar”. Não jogou de início, estava o caldo estuporado. Antes do embate, na instalação sonora, anunciaram a equipa do Benfica, Chalana no banco. A Cristina, de pronto, fez suplicia, com aquele “vamos embora”. Venci-a com indução, “ele ainda vai jogar”. Acertei. O Benfica empatou, fiquei triste. Ela ficou feliz, quando o Fernando entrou. Afinal havia recital, havia festival.

Escrevi, anos volvidos, já éramos amigos íntimos, que ele era o mais sério desafio à perfeição. Feliz, absolutamente, quando fintava. Foi mago do drible, mais fácil para ele do que apertar o nó da gravata. Fazia o truque do torcicolo, olhava para um lado, metia a bola no outro. Mexia-se como uma borboleta, até o bigode dançava.

Também escrevi que o Chalana sem bola era Romeu sem Julieta. Com técnica a rodos, dava-lhe agasalho. Era jorro de água pura. Estilo bamboleante. Descodificava o seu futebol apenas no último passe ou no golo. Fez-nos trocar o vinho a martelo pelo mais refinado champanhe.

São anos, muitos anos, de afeição e amizade por aquele que considero o mais genial futebolista do Benfica, depois do mítico Eusébio. Há tempos, de férias, na minha Vila do Conde, fizemos praia. Ele fez bola, muita bola, toda a bola, para folgança de companheiros e circunstantes. Acho que percebeu que até tenho um bom pé esquerdo para brincar com coisas sérias. Ele, que acabou de fazer 60 anos, teve e tem tudo. Tudo para ele é sério, mas brinca com a ternura, com o encanto, com o fascínio de um garoto babado pela bola. Com ele, mais redonda, mais bonita, mais sublime.

© Destak
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