HORA BOLAS

Pasmo e orgasmo

17 | 02 | 2019   17.31H
João Malheiro

Como é possível? Como se metamorfoseou o Benfica? Com raras exceções, exemplo da goleada infligida ao Sporting de Braga, ainda no consulado de Rui Vitória, as amostras na Luz não tinham luz. Eram borranhentas, pesarosas, deprimentes. E fora da Luz? Também sem a luz da qualidade, da crença, da persuasão.

Já com a bola em movimento acelerado e o Benfica em movimento desesperado, Luís Filipe Vieira disse que viu uma luz. Uma luz que fez mal à Luz, uma luz que paralisou a Luz. Uma luz que só adiou o inevitável, aquilo que para todos era inconjurável. A teimosia e a pervicácia do líder benfiquista não foi uma luminária, foi uma falsária.

Eis que surge Bruno Lage. O gigantesco universo vermelho mostrou-se receptivo, ainda que sem grandes alardes de entusiasmo, de arrebite. Até se tinha falado, demagogicamente, em José Mourinho. Pior era mesmo impossível. Perdoe-se-me a enfatuação, numa entrevista televisiva, enquanto associado do clube e antigo diretor de comunicação, manifestei a minha anuência, até o meu apoio incondicional, mesmo sabedor de um próximo calendário competitivo muito intricado.

Bruno Lage superou as melhores expetativas, todas as expetações. A equipa passou a ostentar desenvoltura, classe, charme competitivo. Houve uma dose dupla sobre o Vitória de Guimarães, até em terreno alheio, outra dose dupla, também triunfante, com o rival Sporting, um inédito triunfo na Turquia, com uma equipa quase bebé, inclusive uma goleada daquelas que acontecem uma vez em cada meio século.

Pasmo? Sim, pasmo. Mas também e muito orgasmo. Os benfiquistas estão deleitados, mesmo que nada esteja ganho. Vai dar para vencer? Até pode, até parece que vai acontecer. Mas, caso assim não seja, fica o registo de uma fruitiva transfiguração. Há mais luz, muita e melhor luz na Luz.

© Destak