INSTANTES

O tempo

18 | 02 | 2019   19.02H
Luisa Castel-Branco

É engraçado como a noção do tempo muda tão radicalmente com o passar dos anos.

Quando somos jovens os dias passam tão lentamente que nos impedem, pensamos nós, de chegar à liberdade da idade adulta.

Vivemos sofregamente. Apaixonadamente. Devoramos os momentos, as paixões, as amizades.

E tudo é importantíssimo. Tudo tem que ser para já, como se tivéssemos medo de perder alguma coisa de fundamental.

Depois com a chegada da idade adulta ainda conservamos resquícios destes sentimentos. Ainda acreditamos que o príncipe encantado pode estar ao virar de qualquer esquina, o trabalho de sonho à distância de um telefonema que vai chegar sem falta.

E se chega o amor, e se chega o casamento e os filhos, a vida toma outros caminhos, outras vivências, o tempo bate diferente, para uns torna-se uma história feliz, para muitos algo que querem esquecer.

E depois chega a idade madura. Esta nova designação é em si mesma muito engraçada. Antigamente uma senhora de idade tinha quarenta anos, agora é olhar para mulheres com mais de sessenta em plena forma.

Mas não nos deixemos enganar. O tempo, esse relógio universal, bate de forma diferente. E mesmo que a pessoa tenha sido feliz, começa devagarinho a perceber que se sobram horas e lhe faltam sonhos.

Ah! Olha-se para trás e tem-se pena da urgência em crescer.

A idade traz consigo a realidade. Sem nuvens de pó de arroz. Sem enfeites.

Transforma-se apenas num peso gigante às costas.

© Destak