HORA BOLAS

Morte às mulheres

24 | 02 | 2019   18.49H
João Malheiro

Sim, o título é desassossegante, perturbante, alarmante. Morte às mulheres? Às mulheres que são, na vida, a metade mais galhofeira, mais prazenteira, mais à maneira? A mulher é tão mais, tão mais, que até um pintor homossexual, que até um autor homossexual, afeita e enfeita. Desfrui e usufrui. Abrasa e arrasa.

Quase concluídos dois meses do novo ano, já foram assassinadas mais de uma dezena de mulheres neste Portugal, em contexto de violência doméstica. O panorama é agitador, ameaçador, aterrador. A legislação afigura-se insuficiente, não chega a classificação de crime público, impõe-se implementar medidas mais severas, mais austeras, mais sérias.

Os crimes passionais multiplicam-se. Involuntariamente, as televisões contribuem para a maldade, para a iniquidade, para a crueldade. A excessiva mediatização suscita, em mentes perversas, provocação, instigação, tentação.

Sou do tempo em que a RTP operava em exclusivo no espaço audiovisual. Eram interditas imagens de incêndios, sabendo-se que contribuíam para acicatar, para alavancar, para esporear os ímpetos dos pirómanos. Com os femicídios a situação é a mesma. A enxurrada informativa apicaça, estilhaça, desgraça.

A televisão é a última maior maravilha, ainda não superada pelas redes sociais, também com consequências atadas, laçadas, enleadas. Difícil, muito difícil, é não ver. Fácil, muito fácil, é ver. O problema é que também deseduca, tantos são os teledependentes e os teleestimulados. Ao ritmo da modernidade, numa sociedade crispada, tem efeitos rugidores, ameaçadores, aterradores. Potencia a pirotecnia na política, no desporto, nas diferentes áreas da vida pública.

Que fazer? Declarar impotência, porque a TV é uma parte substantiva de cada um de nós. É mesmo hegemónica. Mas deixar o apelo à telehigiene.

© Destak