COLUNA VERTICAL

O admirável mundo da pós-modernidade

12 | 03 | 2019   22.15H
José Luís Seixas

A indignação nacional sobre os homicídios de 12 mulheres ocorridos nestes primeiros dois meses do ano num quadro de violência doméstica justifica tudo: manifestações, proclamações, verberações. Porém, do que vimos, o essencial ficou de fora. Estas mortes presumivelmente infligidas por companheiros ou maridos, ou ex-companheiros ou ex-maridos, não se combatem com agravamento de penas ou com a criação de novos tipos de crime ou, a mais surrealista, com a emergência de tribunais de competência especializada. Estas são as soluções primárias, de quem pensa pouco e precisa de fazer fogo de vista em ano eleitoral. O que importa indagar são as causas desta barbárie numa sociedade que se anuncia como civilizada, moderna, varrida pelos novos ventos que afastam os bolorentos conceitos até há pouco dominantes, cerceadores de tanta coisa. Quais os valores hoje prevalecentes? Será que a eliminação do velho primado da moral social, outrora explicada nas escolas públicas e vivida no seio das famílias é alheia a este fenómeno? Ou será que a menorização do papel fundacional da família, substituída pela lógica da adição em substituição da lógica da fusão (em que as individualidades se juntam, mas não se completam), terá alguma coisa a ver com tudo isto? Ou haverá uma refracção geral da concepção da conjugalidade assente no afecto e no respeito mútuos? E a comunicação social, ao divulgar com traços de sangue cada uma destas notícias, não vulgariza a violência e não potencia o seu efeito mimético? Finalmente, importa relevar que a violência doméstica é muito mais vasta e preocupante do que a violência dentro do casal. Integra a violência sobre os velhos e a violência sobre as crianças. E esta violência compreende os conceitos do abandono e da omissão. E aqui regressamos à vexata questio: porque me hei-de estar a maçar, hipotecar a minha liberdade e privar-me os prazeres da vida por causa do velho demente que só dá despesa e chatices ou do filho que prefere jogos de computador à minha assistência e companhia?

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

© Destak
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