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INSTANTES

Ninguém nos ensinou o que esperar da vida

02 | 04 | 2019   19.30H
Luisa Castel-Branco
Não falo dos amores e desamores, ou sequer do quanto é difícil educar os filhos, cujo amor é tão grande que tudo, ou quase é ultrapassável. Falo sim desta fase da nossa existência, a chamada meia-idade, que se por um lado o avanço da ciência, nos permite estarmos ainda capacitados até muito mais tarde do que há anos atrás. Não. Falo sim desta fase que se estende a quantas pessoas amamos, e que embora nunca estejamos preparados para dizer adeus, há, contudo, formas ainda mais dolorosas de assistir ao fim destas vidas. Dói tanto, mas tanto, quando a nossa mãe nos deixa de reconhecer, e conhece as pessoas que tratam dela, e fala e brinca com os outros e contudo, quando vê um dos filhos, ou pior, quando lhe chamamos Mãe os olhos perdem-se nos nossos, a voz desaparece e ali fica, como se estivesse a procurar no mais profundo da sua memória, da sua alma, as memórias que se desvaneceram. E de repente, começa a tremer e temos que sair dali. Cada vez que tenho que a ir ver, é como se me tirassem um bocado de pele, e o esticassem ao limite. Todo o dia ela me acompanha, aprece sem pedir licença e muitas vezes nos momentos mais inoportunos. Tenho tantas, mas tantas saudades da minha Mãe. Das nossas conversas e desconversas, dos múltiplos telefonemas diários, sempre enganada porque queria falar com a minha irmã? Quando me deito revejo a vida que tivemos penso: será que fiz tudo o que devia? Eu acho que sim. Mas quem sabe… Anseio que o telefone toque e me digam que ela partiu. Que acabou aquele estar e não estar nesta existência. Ah ! ninguém nos prepara para isto…
© Destak
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