HORA BOLAS

Deus em crise

07 | 04 | 2019   17.04H
João Malheiro

A quadra pascal remete-me, deleitosamente, para as memórias de uma infância feliz. Mais ainda naquela magnífica aldeia do concelho de Caminha, Lanhelas de seu nome, bela em cada metro quadrado de cabimento, com uma vista excelsa para o rio Minho e a espanhola Galiza, mais todo o seu verde esplendor.

O domingo de Páscoa era mesmo especial. Pobres, remediados e providos, em absoluta comunhão, desfrutavam de um dia, até dois, porque na segunda-feira seguinte prosseguia o folguedo, num contexto de felícia singular. As mesas, nas residências particulares, estavam cobertas de iguarias, na receção, sempre solene, ao compasso, cuja senha de entrada eram ramos e flores à entrada das moradias. Vivi assim a Páscoa na idade imberbe, também muito dessa forma mística em Vila do Conde, já na adolescência e na condição adulta.

Há anos, na Grande Lisboa, a efeméride quase me passa despercebida. Sem professar, desde sempre, qualquer religião, é algo que não me desiludindo de todo, me provoca uma frisada nostalgia. Afinal, vivemos numa época em que a Igreja perdeu vitalidade e cubicagem persuasiva. A prová-lo, reportando-me apenas a sucedimentos recentes, a legalização do divórcio, do aborto e do casamento de homossexuais.

Em Portugal, o fenómeno até já é longínquo. De que lado estava a Igreja, no século XIX, na luta entre miguelistas e liberais? De que lado estava a Igreja, no começo da centúria XX, na luta entre monárquicos e republicanos? De que lado estava a Igreja, em 1974, na luta entre fascistas e democratas? A Igreja averbou sempre derrotas inapeláveis.

Mas aqueles domingos sem bola mexiam comigo, transportavam serenidade, igualdade, solidariedade. Talvez por isso, aprendi a respeitar as crenças religiosas até hoje, mesmo que jamais me deixasse conquistar por elas.

© Destak
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