HORA BOLAS

Biqueiradas na gramática

14 | 04 | 2019   22.48H
João Malheiro

Se o meu avô materno fosse vivo, o sujeito estava feito. Estava feito e bem feito. Quem é o sujeito? Um advogado, de postura grotesca e papaguear pacóvio, que aparece com frequência nos palcos mediáticos, cedidos por canais televisivos a troco de pateguices susceptíveis de alavancar audiências. Excita as tascas da vida, exorta frustrações, bonifica inscientes.

O sujeito, há dias, utilizou a expressão “houveram”, entre outras calinadas, desferindo um pontapé na língua de Camões, digno de umas reguadas bem justapostas dos tempos da velha quarta classe desse não menos velho regime ditatorial ou dessa também velha cultura repressiva. Prodigalizo, sem quaisquer saudosismos extemporâneos, que chumbaria no ainda velho exame de aptidão ao liceu.

O meu avô, tão bem o conhecia, mais o seu implacável arrebatamento pelo português bem falado e bem escrito, não deixaria de apresentar queixas a todas as entidades que lhe parecessem responsáveis ou com autoridade para intervirem. Também o meu pai, licenciado em Direito, sentiria vergonha de ter um colega tão ignorante e nunca o despenalizaria, mesmo que o assunto em apreço fosse relacionado com futebol ou suas lateralidades tansas.

O tal advogado do “houveram” prossegue na liberdade de maltratar o nosso idioma e, para o caso, até pouco interessa que também amarrote a bola, essa que a tantos apaixona. Já houve (o sujeito diria houveram) tempos em que os convidados residentes das TV´s eram selecionados de forma apertada, para que não houvesse (o sujeito diria houvessem) apaleamentos à língua materna, até pelas consequências nefastas que daí poderiam advir.

Perante isto, o que se me oferece dizer? Que o Direito tem protagonistas tortos, que a bola tem comentadores quadrados, que a televisão tem atores sesgos.

© Destak
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