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COLUNA VERTICAL

Os incógnitos

23 | 04 | 2019   22.33H
José Luís Seixas
Volvido o período Pascal e regressados às coisas mundanas, por entre os papeis que a secretária vai suportando reparei numa notícia da edição do Expresso de há quinze dias com direito a chamada de capa: Portugal registou um aumento de 64% de crianças registadas sem nome de pai. Imputa a notícia tal “feito” à alteração legislativa de 2017 - que aboliu as investigações de paternidade relativamente a gravidezes com recurso a dador de esperma -, embora reconheçam as investigadoras ouvidas e que “pariram” o estudo noticiado que o fenómeno abrangeu também - se calhar, sobretudo - o fruto de relações fortuitas. A socióloga Mafalda Leitão debita que tal circunstância constitui um sinal “interessante de modernidade”. Concluindo que “a relação conjugal deixou de estrar ligada à parentalidade e que há uma maior individualização da maternidade”. Aqui chegados, pergunto-me para que, na concepção acima exposta, servem os homens? Para meros animais reprodutores. Ou pagos pelos “bancos de esperma” ou fruidores do acaso sexual. A questão não está aqui. A questão nodular está na perversão que esta sociedade relativista criou. Não são as mulheres ou os homens que têm direito à maternidade ou à paternidade. É a criança que tem direito a nascer, a ser amada, a conhecer a sua ascendência, a traçar o seu mapa geneológico e, neste momento da ciência, o seu património genético. Esse direito foi eliminado. Hoje a criança é o brinquedo que se compra, sem passado cognoscível, geminada e gerada por terceiros anónimos para mulheres ou homens mimarem com o caniche e o gatinho, embonecarem e exibirem. E se na legislação antiga se referiam as crianças sem pai conhecido, ou como tal declarado pela mãe, como “filhos de pai incógnito”, referência mais tarde abolida porque estigmatizante, mas se impunha que o Ministério Público tudo fizesse para identificar o tal pai ignorado, era porque se entendia que o conhecimento do pai era um direito da criança que sobrelevava até a vontade da mãe ou de ambos. Tempos bem diferentes de hoje em que o pai é visto como puro animal de cobrição. Peço desculpa aos espíritos mais sensíveis. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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