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INSTANTES

As saudades que eu tenho

13 | 05 | 2019   23.02H
Luisa Castel-Branco

Que saudades que eu tenho de não ter saudades.

Que saudades que eu tenho do pisar da relva molhada pelo raiar da manhã e a Maria à porta. Oh menina venha para dentro que a sua mãezinha a apanha!

A relva que cheira a ventre da terra. A terra prenhe. A sonhos impossíveis.

Ah que saudades do sabor da infância, aquela mistura de tudo o que se derrete na boca e cabe lá o mundo inteiro, todos os paladares, todas as sensações, tudo o que é proibido e é futuro, e é sonho.

Como as claras em castelo deitadas no copo com água na noite de luar de Santo António e no dia seguinte nos diziam o futuro. O meu futuro diluído naquele líquido que eu olhava ansiosa e estupidamente, entre a luz que o luar deixava entrar nas janelas da cozinha. Oh menina vá-se deitar que a mãezinha acorda.

Que saudades de não ter saudades mas, para isso, houvera que nascer outra vez. Sem olhos. Sem olfato. Sem mãos estendidas que pedem.

Pudesse eu perder-me nesse local mágico do que ainda não foi e nunca o será.

Nuvens penduraras no varão da roupa. Oh menina venha para aqui que a sua mãezinha zanga-se.

E eu a voar, a voar para nunca mais voltar.

© Destak
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