INSTANTES

Estou aqui pendurada por um fio

13 | 05 | 2019   23.13H
Luisa Castel-Branco

Sinto-me pendurada por um fio. Que baloiça para trás e para diante, para diante e para trás sem parar. Não olho para baixo porque tenho vertigens e o chão está lá tão longe que não consigo vislumbrar nada. O vento bate-me no rosto e disso eu gosto. Parece dedos suaves a afagarem me os cabelos e mexem-se ao som daquela misteriosa música que o vento faz quando lambe as coisas e as pessoas Mas o fio é fino e eu tenho medo. Por isso finjo que está tudo bem e que estou para aqui pendurada porque assim o quis. Mas é mentira! Acordei de um sono que não me lembro, onde estava eu? Sozinha, seguramente . Acordei e estava aqui pendurada. Sobre os dias . Sobre a vida que não vem . Ninguém para me dar a mão . Ninguém que saiba ler os meus olhos. As minhas rugas. As minhas lágrimas . Estou sozinha , pendurada por um fio e quando ganho coragem para olhar , apenas vejo a vida dos outros. Os risos dos outros. Tenho medo mas mantenho o sorriso, o mesmo sorriso de uma vida inteira num rosto que vai envelhecendo sozinho, à minha revelia.

Tenho medo mas de que vale? O vento move o fio e eu assemelho-me cada vez a uma marioneta.

- Senhoras e senhores . Meninos meninas :a mulher com dois rostos e nenhum coração que já lhe foi cortado!

© Destak