COLUNA VERTICAL

Falemos claro!

28 | 05 | 2019   18.14H
José Luís Seixas
Vamos lá ver se nos entendemos. A extrapolação de resultados eleitorais é um exercício arriscado. O passado ensina que cada eleição tem a sua identidade que o eleitor distingue com clareza expressando em cada uma o seu específico desígnio. Mas isso não legitima a leveza da desconsideração do que se passou no Domingo por parte de muitos. A redução das análises à abstenção é falaciosa. Comparados os números reais não cresceu assim tanto nem tão desproporcionadamente relativamente às Europeias de 2014. A questão não é essa. Não interessa iludirmo-nos com malabarismos de retórica. A esquerda ganhou. A direita perdeu. Ponto. A esquerda ganhou apesar do PC. A direita perdeu em toda a linha, com números inapresentáveis. E não nos sufoquem com o PAN, epifenómeno que durará o tempo de um fósforo. A esquerda que governa, apesar do mal que governa, dizimou a direita. Porquê? Porque a direita teima em não perceber que os tempos mudaram, que as preocupações das pessoas e das famílias são outras e que o silêncio de uma parte muito significativa da população que não se revê neste modelo social que o politicamente correcto tornou imperativo decorre da sua falta de representação tribunícia. Esta terá de ser assegurada por nova gente, descomprometida, sem medo, que pense estratégica e não taticamente e que não dependa da carreira, do partido, do lugar e da negociação do poder. Que se faça respeitar. E se dê ao respeito. Sem necessidade de agendas disruptivas nem anti-sistémicas. Que protagonize uma direita refundada na retoma da ideologia, dos grandes princípios do humanismo personalista e na rejeição do pragmatismo inconsequente e do discurso incidental. Enquanto as actuais lideranças não perceberem isto, o Dr. Costa perpectuar-se-á, governando cinicamente ao centro na Europa e pretensamente à esquerda em Portugal. Acreditem. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak