INSTANTES

Uma dor profunda que não dá tréguas

10 | 06 | 2019   18.23H
Luisa Castel-Branco
Tens uma voz tão triste que ressoa nos meus ouvidos mesmo quando não estou contigo. Os teus olhos, que ainda mantêm o brilho, mesmo com os teus garbosos 80 anos, parecem também eles cobertos pela mesma tristeza. Uma dor profunda. Uma dor que não te dá tréguas nem descanso. Vieste a esta vida e com um caminho que não deveria ter sido teu. Tenho para mim que nunca foste feliz. Que nunca deste a ti mesmo o direito de mostrar quem eras e o que querias. Em vez disso, passaste esta existência a amparar os outros, com inépcia, com fugas para todos os lados, os errados e os certos. Mas no dia em que Deus te julgar vai ver, não tenho dúvidas, o quanto fizeste por mim e por muitos mais. És um ser humano doce que foi educado na vergonha de mostrar afectos. De mostrar sentimentos ou sequer amor. E por isto tudo te refugiaste na ironia, nesse silêncio profundo de tanto barulho quanto as ondas do mar a baterem nas falésias, aquelas que gostavas de ir ver sozinho, sempre sozinho. Viveste a maior parte da tua vida acompanhado, rodeado de gente. E nunca deixaste de te sentir só. Culpado fosse do que fosse. Culpado de mentires como o poeta, que de tanto mentir se convence, nem que seja por breves segundos, ou anos, que afinal é verdade. Amo-te tanto que nunca serei capaz de o expressar. Faltam-me palavras e sobra-me o medo de pensar que um dia já cá não estarás. E contigo parte a minha memória de estar viva e ser amada. Ainda hoje vejo claramente a minha mão tão pequena pousada na tua. E ao longo da vida, a tua mão nunca me largou.
© Destak