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INSTANTES

Do que eu gosto

17 | 06 | 2019   23.01H
Luisa Castel-Branco

Gosto da chuva. Do cheiro da terra molhada. Da música que a chuva faz ao bater nas janelas.

Gostava da primavera e do outono. Mas já não existem.

Eram sempre um início de tantas coisas: novas cores na paisagem, novos cheiros que vinham da cozinha e se misturavam com a roupa quente e as meias grossas.

Gosto do mar quando é inverno e posso passear num enorme silêncio das ondas a baterem no areal, nas pedras que logo pela manhã contam histórias. Quando vivi perto do mar ia bem pelo nascer do dia conversar com os pescadores. Queria saber pescar e estar horas a fim a olhar para as cores do mar que mudam e mudam.

Não gosto de calor. E tenho tanta pena! O calor é o meu maior inimigo. Baixa-me a tensão e desmaio sem aviso. Quando era adolescente a minha mãe dizia que era para chamar a atenção! Foi nessa época que se descobriu que a praia fazia muito bem aos meninos, e eu lá ia ladeira abaixo em Albufeira, que naquele tempo não tinha praticamente visitantes e comíamos a alfarroba roubada das árvores.

Por causa de me sentir mal com o calor há tantas coisas que não posso fazer com os meus netos! Gosto de crianças, mas gosto tanto dos meus netos que até me dói o coração!

Gosto de cozinhar, mas não gosto de comer. Gosto de ver a mesa cheia de gente e eu a servir os pratos e o perfume que sobe e o vapor que se espalha pela casa.

Gosto de jardins, mas acima de tudo gosto do campo. Era onde eu queria viver, no campo, numa aldeia pequena, rodeada por árvores grandes e caniçais e um rio que desenhasse na terra uma serpente gigante.

O campo tem tudo o que não há na cidade. As cidades são sítios para visitar e depois ir embora.

Acordar com o canto do galo. Com a geada a cobrir a erva até perder de vista. Ir buscar os ovos ás galinhas, fazer os enchidos na época própria, e as compotas, e a marmelada.

E sentar-me à lareira a fazer camisolas grossas.

Ah! Todos os mistérios que verdadeiramente importam estão por esse país fora espalhado por montes e vales. Aí é tudo tão verdadeiro! E o silêncio está sempre cheio de vozes que um dia foram, e as águas são translúcidas e as noites têm tantas, mas tantas estrelas que perdemos o tino se as quisermos contar!

Às vezes gosto de estar viva. Outras só tenho medo.

© Destak
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