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INSTANTES

Rituais da escola

09 | 09 | 2019   15.55H
Luisa Castel-Branco

Quando era uma miúda, o ano letivo começava sempre na mesma data: 1 de outubro. Sabíamos que assim era, como reconhecíamos por essa altura o cheiro do outono que chegava. A terra húmida, prenhe, e a espectativa de tudo o que nos esperava.

Os rituais eram sempre os mesmos. Os livros que recebíamos dos irmãos mais velhos ou primos, forrá-los novamente, com cuidado e esmero, comprar o estojo, os lápis e canetas, e o compasso e as réguas.

As meias até aos joelhos, que nos deixavam tão orgulhosas, as saias plissadas, as batas.

O ano novo começava aqui e não em janeiro! Novos amigos, velhos amigos, paixões de adolescentes com borbulhas. Uma eternidade esperava por nós, já fartos dos três meses das férias grandes.

Tenho pena que os meus netos não venham a saber o que são as quatro estações do ano. As férias no campo a brincar com os miúdos que andavam descalços e nós tirávamos os sapatos por três meses com genuína alegria. O pisar as uvas. O milho-rei. O mugir as vacas com medo, e aquele quente nos dedos.

E no fim de tudo isto, retornava-se a lisboa e os dias eram longos, sem televisão, sem telefones, com brincadeiras na rua e joelhos esfolados. “Maria Luisa, já não tens idade para andares feita maria-rapaz!” Éramos todas Marias nesse tempo, mas os dois nomes próprios só eram ditos quando fazíamos asneiras!

Depois das aulas começarem, e lentamente, vinho o inverno, certinho, na data marcada.

A mim hoje faz-me falta todas essas datas no calendário da vida. Davam-nos uma enorme segurança, um sentimento quente no peito, um aconchego nas noites.

Foram outros tempos, eu sei, mas gosto de os recordar e partilho-os muitas vezes com os meus netos, como fiz com os meus filhos.

A memória de cada um de nós é um tesouro que não se deve perder. Todos juntos fazemos uma nação.

© Destak
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