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HORA BOLAS

Jesus ressuscita

15 | 09 | 2019   18.19H
João Malheiro

O Brasil é um colosso, Cabral não podia ter melhor fadário na sua descoberta, nesse mágico 1500. Com encantadora heterogeneidade, só o futebol e talvez o Carnaval suscitem consenso no maior país da América do Sul.

Foi ao apelo de Jesus, amigo de longa data, que decidi, no pretérito julho, rumar ao Rio de Janeiro. As deleitosas Copacabana, Ipanema ou Tijuca não me gatunaram o propósito da estada carioca. Na altura, na rédea do popular Flamengo, um dos poucos clubes míticos no contexto planetário e descomunal no Brasil, o treinador luso era alvo quotidiano de severas críticas e recensões jocosas de gazetistas e adeptos.

Sempre na companhia de Carlos Mozer, flamenguista e benfiquista entranhado, percebi quão difícil seria a Jesus impor-se num país que reivindica a paternidade da bola, saudosista e altaneiro na mercê dos cinco títulos mundiais já distantes, refém de uma cultura futebolística que roça a xenofobia. Estive no esplendoroso Maracanã e assisti ao início do ascenso vertiginoso de Jesus, num triunfo sobre o Botafogo e na ulterior continuidade na Taça dos Libertadores.

Num ápice, tudo mudou. O Flamengo vence sem intermitências e joga de retórica charmosa. A expedição de Jesus começou com enorme atraso pontual e já leva significativo avanço. O treinador inspira confiança a dirigentes, jogadores, apaniguados e jornalistas. Lidera o Brasileirão e cimenta a candidatura à congénere sul-americana da nossa Champions, provas que o clube do Rio não vence há muito para desespero dos seus milhões de fãs.

Jesus ressuscitou o Flamengo na pátria da chuteira, diria Chico Buarque. Não tem contestação e, melhor ainda, já há quem lhe vaticine o cargo de selecionador brasileiro ou outras empreitadas de vulto. Neste Flamengo, está em estado de graça pela graça do novo estado.

© Destak
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