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HORA BOLAS

Fundamentalismo na moda

29 | 09 | 2019   18.16H
João Malheiro

Ainda me recordo dos tempos da ditadura, tempos execráveis, tempos abomináveis. A dita era dura, sem mesura e com censura. O delito de opinião vigorava, até torturava, até matava. Quem não obedecesse à cartilha fascista era, fatalmente, comunista. Abril chegou e vingou. Nos primeiros tempos da democracia, quem não era comunista, quase sempre, era fascista.

O fundamentalismo pontificou e, na política portuguesa, só mais recentemente abortou. Mas subsistem resquícios, permanecem vestígios. Já no futebol caseiro, o fundamentalismo recrudesce, até aquece. Como sustenta o sociólogo britânico Antony Giddens, para os fundamentalistas “só um modo de vida é válido e os demais têm de sair da frente”. É fremente e inclemente.

Lembro o trágico consulado presidencial de Vale e Azevedo no Benfica. Aferi e combati. A par de tantos outros, Eusébio incluído, era acusado de fazer o jogo do inimigo, merecia castigo. E agora? No Benfica, no FC Porto, no Sporting, não é possível, as mais das vezes, discutir racionalmente com quem nos quer desancar e jamais tolerar as nossas convicções, as nossas argumentações.

Luís Filipe Vieira nada sabia sobre as toupeiras de Paulo Gonçalves. Pregam os benfiquistas, denegam os portistas. Pinto da Costa nada sabia sobre os mails de Francisco Marques. Sustentam os portistas, contestam os benfiquistas. No Sporting, os adversários do populista Bruno de Carvalho eram traidores. Agora, no Sporting do dobradiço Frederico Varandas, os contestatários são malfeitores.

O fundamentalismo assenta na manipulação e desencadeia imbecilização. Entre nós, para tantos, pior ainda com a massificação das redes sociais, o futebol é uma religião fanática e lunática. Arrasa a inteligência e a decência. Com tamanhos censores, trucidam-se os melhores valores.

© Destak
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