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COLUNA VERTICAL

Assunção

08 | 10 | 2019   18.25H
José Luís Seixas
Declaração de interesses: tenho a maior simpatia pelos pais e irmãos de Assunção Cristas. Em nada, porém, esta particular circunstância inibe o meu juízo sobre a sua liderança do CDS que ontem viu o seu decesso. Assunção Cristas, por ingenuidade ou excessiva confiança, esqueceu regras elementares desde o início do seu consulado: Primeira: um partido, como qualquer organização, conquista-se; não se aceita como legado a benefício de inventário. Assunção recebeu-o das mãos de Portas, ungida por Portas e, claro, condicionada por Portas. Segunda: um líder afirma-se pela escolha da sua equipa, constituída por quem não partilha lealdades nem devoções. E, nunca por nunca, se faz rodear dos que serviram a anterior liderança que assim permanece presente, controladora, juguladora. Terceira: o líder não copia modelos de poder pessoal. Cria e cultiva o seu estilo e, num partido ideologicamente marcado como o CDS, não pode fazer aggiornamentos insuficientemente explicados na procura duma falsa modernidade que, depois, colide com o fio de prumo e com as expectativas de militantes e eleitores. Quarta: as bases não se desprezam nem se ignoram com um sorriso. Quinta: o CDS sempre foi um partido que se afirmou, viveu e cresceu com gente com “mundo” e profissão, não dependentes da política, da assessoria, do óbolo. Daí ser designado como “partido de quadros”. O que se perdeu. Funcionalizou-se. E hoje contempla-se uma realidade nova constituída por dirigentes sem passado, sem identificação profissional e sem as provas da vida comum dadas com mérito. Assunção esqueceu estas cinco regras simples. Não superou as vicissitudes que os condicionamentos do aparelho herdado lhe criaram. E assim sucumbiu. Nenhum democrata se deve satisfazer com este insucesso. Portugal precisa do CDS como voz tribunícia da democracia cristã, dos novos pobres e das classes médias maltratadas. Espera-se que, um dia depois do funeral do seu fundador, não tenha colapsado em definitivo e tenha a audácia da introspecção generosa que se impõe. Arrumando a casa e procurando nova gente sem os tiques do caciquismo e do poder. Com passado, vida e curriculum. Reassumindo, sem equívocos, o seu legado histórico na defesa intransigente do personalismo, da democracia cristã e da economia social de mercado. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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