As horas que não passam
As horas passam como gotas de chuva a escorrem na vidraça da janela.
Eu sentada a olhar para o vazio, que há muito que perdi a rua, os carros e tudo.
A noite apareceu de repente e eu não dei por isso. Só a luz amarela dos candeeiros da rua: um, dois, três, derramada sobre o sofá, a carpete e a escorrer pelo chão de madeira.
O silêncio comeu tudo. Este silêncio pesado que abraçou a minha vida como se do fantasma da morte se tratasse. Entrou devagarinho, sorrateiramente pela calada da noite e depois foi-se deixando estar, cada dia um pouco mais até ocupar toda a casa, até ocupar todo o meu corpo.
Não quero olhar para as fotografias que teimosamente ainda não consegui retirar da sala e me mostram outra que já não sou a rir, de braços abertos para a vida, coração leve e desbragado.
Não quero mexer-me. Sei que se esperar mais um pouco vou deixar também de respirar. Sem esforço. Sem que me doa sequer.
O telefone que não toca. A campainha da porta que não se ouve e a luz amarela dos candeeiros que parece brincar com os desenhos do tapete.
Havia um gato preto, gordo, que aparecia na minha minúscula varanda. Ainda lhe dei de comer, tentei afagá-lo mas eriçou o pêlo e esquivou-se. Um dia deixou de aparecer. Tenho a certeza de que o silêncio lhe pesou tanto quanto me pesava a mim no início, quando o meu corpo ainda teimava em mexer-se.
Agora, o verdadeiramente difícil é mover um só músculo. Verter uma última lágrima.
Se ficar aqui até ao fim, quem sentirá a minha falta?
Não tu, seguramente, não tu.







15 comentários
Uma luisa
A Luisa está a imaginar-se daqui a 20 anos.É bom que comece a traçar cenários tendentes a dar a volta á situação.
De facto, há muitas pessoas de 80 e tal anos que vivem em total solidão,e passam os dias á espera da morte,recordando os tempos de juventude,num misto de saudade e revolta por esses tempos não se perpetuarem para sempre.
Há quem saiba envelhecer com prazer.Em todas as idades há alegrias muito próprias.Quem tem verdadeiros amigos,sejam eles famíliares ou não,nunca sente o peso dos anos.
O mal de muitos idosos é ficarem em casa sentados durante muitas horas em frente ao televisor,vendo telenovelas deprimentes.Quem faz caminhadas diárias,e cultiva o gosto pela leitura e ajuda os outros,na medida do possível,seguramente que os dias passam com mais saúde e alegria.
Quem não quiser evoluir...
...faça o favor de ler e decifrar a Luisa Castel-Branco.
Na sincronia de um momento essencial...
intemporal de um silêncio mágico ...
Onde gestos e acções ... são os guardiões de sentimentos maiores ... mas contraponho o pensamento ao imaginar muito Velhinhos e outras pessoas isoladas sem terem ninguém ... são horas vãs em que silêncios se tornam e aprofundam a solidão ... Reflexos tristes de um tempo evoluído e de um futuro para muitos incerto.
Seres esquecidos e amargurados ... abandonados e sozinhos num mundo dito civilizado. Partilhar ... atenuar a solidão
Haja solidariedade
Respeitar o próximo
Porque filho és ... Pai serás ...
E para a velhice caminharás! Já agora deixo a minha homenagem a todos os idosos que nos dão tantas lições de vida e em cada ruga há uma história para nos contar...
Cumprimentos
MariaL