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INSTANTES

As horas que não passam

09 | 02 | 2010   08.38H
Luisa Castel-Branco

As horas passam como gotas de chuva a escorrem na vidraça da janela.

Eu sentada a olhar para o vazio, que há muito que perdi a rua, os carros e tudo.

A noite apareceu de repente e eu não dei por isso. Só a luz amarela dos candeeiros da rua: um, dois, três, derramada sobre o sofá, a carpete e a escorrer pelo chão de madeira.

O silêncio comeu tudo. Este silêncio pesado que abraçou a minha vida como se do fantasma da morte se tratasse. Entrou devagarinho, sorrateiramente pela calada da noite e depois foi-se deixando estar, cada dia um pouco mais até ocupar toda a casa, até ocupar todo o meu corpo.

Não quero olhar para as fotografias que teimosamente ainda não consegui retirar da sala e me mostram outra que já não sou a rir, de braços abertos para a vida, coração leve e desbragado.

Não quero mexer-me. Sei que se esperar mais um pouco vou deixar também de respirar. Sem esforço. Sem que me doa sequer.

O telefone que não toca. A campainha da porta que não se ouve e a luz amarela dos candeeiros que parece brincar com os desenhos do tapete.

Havia um gato preto, gordo, que aparecia na minha minúscula varanda. Ainda lhe dei de comer, tentei afagá-lo mas eriçou o pêlo e esquivou-se. Um dia deixou de aparecer. Tenho a certeza de que o silêncio lhe pesou tanto quanto me pesava a mim no início, quando o meu corpo ainda teimava em mexer-se.

Agora, o verdadeiramente difícil é mover um só músculo. Verter uma última lágrima.

Se ficar aqui até ao fim, quem sentirá a minha falta?

Não tu, seguramente, não tu.

© Destak

15 comentários

  • Todos sabemos que a vida é assim mesmo. Ensina-nos a experiência que devemos estar preparados para tudo. Quando estamos na mó de cima são tudo maravilhas. Depois, nem os cães nos ligam. No meio disto tudo, os únicos culpados somos nós que não quisemos ou não soubemos precaver-nos contra as intempéries. Esse é o verdadeiro espelho com que todos nós nos confrontamos em cada dia que passa. Alguém diria que já não há valores. Quanto a mim, acho que os valores actuais são os mesmos de sempre, apenas reforçados por este mercantilismo sem horizontes e sem fronteiras. Acresce que dantes, no meio da miséria, nos sentíamos menos miseráveis. Éramos mais iguais. Por último, um conselho para os leitores: previnam o vosso futuro e esqueçam que algo existe para além de nós próprios. Por mim, não tenho pena nenhuma daqueles que criaram vãs ilusões ao longo das suas vidas, viveram o dia-a-dia como se o outro dia não se seguisse e esquecendo-se da sociedade em que vivem. Palavras leva-as o vento e os sonhos não passam disso mesmo. Lamúrias não me ouvirão, nem que rasteje pelo chão sob o peso do que quer que seja.
    Kilas | 22.02.2010 | 16.12Hdenunciar comentário
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  • Acredito que a Luisa Castel-Branco quis mostrar a realidade do País e do Mundo, pois infelizmente a maioria agem assim, esquecem simplesmente o dom da VIDA, e viver este mistério da VIDA é algo único, onde podemos ter a maior lição de vida, mas desistir de ser feliz nunca. Vamos lutar contra este sentimento negativo, pois não nascemos para viver na solidão e sim conviver com outros seres...
    SPC | 22.02.2010 | 10.23Hdenunciar comentário
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  • Luisa, não entendo esse fatalismo. Como é possivel que a luisa nos apresete uma visão tao fatalista da vida. Na realidade todos sabemos que não é facil por vezes levar a nossa cruz ao calvário, mas não podemos entregar as armas sem resistencia. Porque na verdade se a luisa ficar sentada, ninguem a virá levantar. Mas por favor a Luisa não precisa disso.
    Uma luisa
    luisa | 17.02.2010 | 14.29Hdenunciar comentário
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  • As horas não passam,mas seguramente o pó vai aumentando nos móveis,e o caruncho vai roendo a madeira,e o mofo não para de crescer...
    A Luisa está a imaginar-se daqui a 20 anos.É bom que comece a traçar cenários tendentes a dar a volta á situação.
    De facto, há muitas pessoas de 80 e tal anos que vivem em total solidão,e passam os dias á espera da morte,recordando os tempos de juventude,num misto de saudade e revolta por esses tempos não se perpetuarem para sempre.
    Há quem saiba envelhecer com prazer.Em todas as idades há alegrias muito próprias.Quem tem verdadeiros amigos,sejam eles famíliares ou não,nunca sente o peso dos anos.
    O mal de muitos idosos é ficarem em casa sentados durante muitas horas em frente ao televisor,vendo telenovelas deprimentes.Quem faz caminhadas diárias,e cultiva o gosto pela leitura e ajuda os outros,na medida do possível,seguramente que os dias passam com mais saúde e alegria.
    vidente | 15.02.2010 | 17.17Hdenunciar comentário
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  • Pois, de facto concordo com a MariaL. É que isto para artigo de opinião...
    anónimo | 15.02.2010 | 15.00Hdenunciar comentário
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  • Quem não tiver um bom livro... Quem não construir o seu hábito de leitura...
    Quem não quiser evoluir...
    ...faça o favor de ler e decifrar a Luisa Castel-Branco.
    Flash | 14.02.2010 | 22.25Hdenunciar comentário
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  • Luísa, filha, isso é muito íntimo, mas vou-te dizer o que digo às minhas amigas, quando me confidenciam esse tipo de coisas. Agradeço a confiança e de facto os amigos são para as ocasiões, mas para todas as ocasião. Quando tudo corria bem e curtiam que nem umas malucas (e faziam muito bem!), não partilhavam. Agora que as coisas correm mal despejam "o negro" sobre mim. Corro, suavemente, com elas, com a recomendação: olha, conforta-te com as tua recordações e com a esperança de melhores dias.
    WebDot | 11.02.2010 | 08.08Hdenunciar comentário
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  • Achei este instante muito melancólico mas ao mesmo tempo a ideia da solidão tão latente na sociedade de hoje em dia ... Eu penso que o silêncio deve ser ouvido ... para agirmos de outra maneira ... e o tempo deve passar mudo para nós ... Para mim ás vezes os silêncios são como flores ...símbolos de mil momentos ...
    Na sincronia de um momento essencial...
    intemporal de um silêncio mágico ...
    Onde gestos e acções ... são os guardiões de sentimentos maiores ... mas contraponho o pensamento ao imaginar muito Velhinhos e outras pessoas isoladas sem terem ninguém ... são horas vãs em que silêncios se tornam e aprofundam a solidão ... Reflexos tristes de um tempo evoluído e de um futuro para muitos incerto.
    Seres esquecidos e amargurados ... abandonados e sozinhos num mundo dito civilizado. Partilhar ... atenuar a solidão
    Haja solidariedade
    Respeitar o próximo
    Porque filho és ... Pai serás ...
    E para a velhice caminharás! Já agora deixo a minha homenagem a todos os idosos que nos dão tantas lições de vida e em cada ruga há uma história para nos contar...
    marluz | 10.02.2010 | 11.42Hdenunciar comentário
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  • Admiro esta senhora que muita gente critica...mas que escreve e diz o que pensa...e todos podem, muita das vezes de forma menos civilizada, contradizer e comentar...ao contrário do malheiro que por não quererem que lhe malhem...malhando ele nos outros..evita que os outros malhem nele....
    acrescento pio | 09.02.2010 | 22.11Hdenunciar comentário
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  • Se isto é poesia, aceito, pois é abrangente. Se é um artigo de opinião, acho egoista, pois muito individualista!
    Cumprimentos
    MariaL
    MariaL | 09.02.2010 | 18.31Hdenunciar comentário
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  • Bem me queria parecer,meu amor!Que de tanto ter aprendido,me habituei a manejar a memória e a regorjgitar,ao longo dos dias mornos do Outono da VIDA,os momentos gloriosos da minha juventude!Quando me lembro de TI,das alegrias que me proporcionaste,dos risos que deste aos nossos netos,das estórias que lhe contaste e pedias,a cada passo,o meu auxílio à tua cansada memória;dos alegres e felizes momentos que vivemos juntos,enfim:ao sol quase frio deste outono da VIDA,enlevo-me e enleio-me no teu perfume,sinto-me afagado pela tuas lembranças e elevo a DEUS o meu pensamento na penumbra deste final de etapa que termina nos teus braços.Bem sei que TU me esperavas.Pois,aqui me tens,meu amor. Estive para não escrever este comentário,porque já sei que vai ser denunciado.Mas,sossegue o denunciante que anda por aí,porque,eu próprio o vou denunciar.
    jovemvidente | 09.02.2010 | 17.36Hver comentário denunciado
  • "Quando chegamos a uma certa idade"? Bolas, que coisa mais estranha para se dizer! A dona Luísa terá que idade, 100 anos? Vamos lá a deixar destas lamúrias tipicamente lusitanas e toca a fazer qualquer coisa. Escreva um Livro sobre as suas crónicas incluindo os comentários Luísa! E publique-o! Seria interessante!
    RAIOS!!! | 09.02.2010 | 16.39Hdenunciar comentário
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  • Comentar Luisa Castel-Branco é dizer a maravilhosa escritora e mulher que ela é, faço o recorte do destak desde o inicio, sou uma fã incondicional e desejo-lhe tudo de bom!
    Fátima manaças | 09.02.2010 | 15.13Hdenunciar comentário
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  • Minha cara Luisa, quando chegamos a uma certa idade dá-nos para isto, não se preocupe . . . !
    alexandre barreira | 09.02.2010 | 15.06Hdenunciar comentário
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  • Sinto o mesmo. Crónica honesta. Parabéns. Toda a gente sente o mesmo. Às vezes acho é que as expectativas de cada um relativamente a quem de facto é a sua família são demasiado elevadas. A nossa família são todos os seres que por aí andam. Se sairmos à rua e por aí nos movimentarmos nunca estaremos sós. O drama não é nosso, é de todos. Mas há a esperança, apesar de tudo, de que depois desse silêncio possamos enfim desaguar num espaço luminoso, mais belo do que o que alguma vez poderíamos ter imaginado.
    GOSTA-SE-DE-LUZ | 09.02.2010 | 10.40Hdenunciar comentário
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