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OPINIÃO

Decidir a guerra

13 | 06 | 2010   22.12H
João Malheiro

A velha tendência lusitana de não reconhecer muitos dos seus melhores é absolutamente irritante. Horas antes da última final da Champions, José Mourinho disse que apenas representava os portugueses que dele gostam, jamais aqueles que com ele antipatizam. Disse e disse bem. Também Cristiano Ronaldo poderia dizer. E dizer bem.

Mourinho é bicampeão europeu, privilégio só conquistado pelos jogadores do Benfica na década de 60 e por Paulo Sousa nos anos 90. Na mesma temporada, arrebatou o Campeonato e a Taça de Itália, garantiu a Liga dos Campeões. Acaba de se aventurar ao Real Madrid, decerto o maior clube do Mundo, decerto apostado em arrebatar o Mundo.

Algemado à persuasão, Mourinho desde cedo evidenciou forte personalidade e aptitude inusitada para a bola, para todas as expressões de aprumo físico.

Conheci-o em 1980, jogava na reserva do Rio Ave, equipa comandada pelo pai. Gostava de dissertar sobre futebol nas tertúlias do então Disco Bar, ao pé do Campo da Avenida. Fiel ao seu sumo de laranja, jamais permitiu que as imperiais dos comparsas o pudessem embair. Era resoluto e exibia um certo charme de autoridade.

Enquanto jogador, não se lhe percebia talento especial para a tarefa, já se lhe adivinhava erudição bastante para a cresta. Mourinho, aos 20 anos, não era um grande jogador de futebol, mas já era um grande pensador de futebol. Sabia como era, não sabia era executar.

Assim disfarçava muitas insuficiências, bola nos pés, sempre no meio-campo, esse lugar pensante. Inteligia o jogo na perfeição, faltava-lhe era ferramenta para concretizar. Não tinha ferramenta técnica, sobejava-lhe ferramenta táctica e mental.

Alguma vez pensei que José Mourinho pudesse ser o mais badalado treinador mundial? Claro que não, tão-pouco quando trabalhámos juntos no Benfica, 20 anos depois. Ainda assim, transportava um tique tão babujante de clarividência e de entusiasmo que só poderia ser homem para não se meter em guerras. Antes, decidi-las.

© Destak
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