O fim dos hipers
Num dos seus últimos livros, Gilles Lipovetski caracterizava a nossa época como um tempo de hipercapitalismo, hiperconsumismo e hiperindividualismo. Se isto foi verdade, também é preciso perceber como tudo já está a mudar. O hipercapitalismo, ou o capitalismo financeiro levado às últimas consequências, rebentou. É difícil vislumbrar o que virá a seguir, mas o tempo da abundância, que os ortodoxos liberais prometeram, está a acabar.
O hiperconsumismo acabará a seguir, com agrado das nossas casas e arrecadações povoadas de inutilidades. Aliás, parece que andávamos todos a consumir aquilo que os chineses e alemães produziam.
Mas a proverbial inteligência da direita alemã levou-a a optar – e obrigar os outros a optar – pelas restrições económicas. Se deixarem cair o euro, não mais terão a quem vender as suas máquinas dispendiosas. E se os chineses deixarem encarecer o yuan, lá vão acabar as chinesices baratas.
Fica-nos o hiperindividualismo. “Eu, eu e só eu”, sem referência aos outros e às comunidades a que pertencemos, agora e no passado. Para compensar, nunca houve tantos grupos na internet, tantas causas virtuais nem tanto consumo da ficção que descreve “as nossas” seitas secretas.
Mas tudo isso é efémera ilusão. Se deixamos de partilhar na vida real, perderemos a identidade, as palavras e tudo o que nos torna humanos. Nem seremos macacos, que têm as suas pertenças. Seremos talvez robôs. Mas alguns, algum dia, terão de partilhar conversas para saber o que fazer dos tempos que aí vêm.






8 comentários
O hiperconsumismo vai diminuir mas o consumismo vai (e bem) continuar. Penso que foi Pascal que disse que se julgava rico não pela quantidade de dinheiro que possuía mas pela grande quantidade de necessidades que tinha desenvolvido ao longo da vida. Nesta linha de pensamento estamos todos mais ricos - todos temos mais necessidades - seja de cuidados de higiene física seja de cuidados de higiene mental. Logo a mais necessidades associa-se a necessidade de mais consumo (música, livros, alimentos, serviços de estéctica, ...).
Diminuiu a pobreza e estamos todos mais iguais e com uma maior consciência do valor individual o que não é sinónimo de individualismo. Ou seja estamos no bom caminho ... Cristo, Gandi, Dalai Lama, Mandela, ... estão cada vez mais vitoriosos
Em suma, os hipers não acabarão, mas vem aí um novo tempo: o tempo da reflexão.
Por último, os meus sinceros parabéns por este artigo que nos conduz ao pensamento lógico e nos induz a fazer alterações comportamentais quer no domínio individual quer no colectivo.