Crise e futebol
A reacção nacional ao resultado da selecção constitui uma boa explicação para a nossa crise económico-social.
Dos 19 campeonatos mundiais da História, Portugal só esteve em cinco fases finais. Assim, antes de partir para a África do Sul, estes jogadores iam já à frente da maioria das gerações anteriores.
Ficámos em terceiro lugar em 1966, primeira vez que lá fomos, e em quarto em 2006, a última. Nas outras duas vezes, 1986 e 2002, falhámos na fase dos grupos. Assim, derrotados nos oitavos-de-final em 2010, conseguimos o terceiro melhor resultado de sempre. Além de fazermos a maior goleada deste campeonato e uma das maiores da história (houve apenas um caso de 10-1, dois de 9-0, três de 8-0 e quatro 7-0, incluindo este), cumprimos a velha regra.
Das três vezes em que passámos a fase de grupos, fomos sempre derrotados por um futuro finalista, a vencedora Inglaterra em 1966, França em 2006 e Espanha agora. Em resumo, somos uma das 16 melhores selecções do mundo, e sem o azar de enfrentar o campeão tão cedo, teríamos ido mais longe.
Que diz a maioria dos portugueses a isto? O desânimo, desilusão, mas também os palpites, críticas, raiva e agressão mostram um grave problema psicológico.
Não na equipe, mas no público. Saltando da euforia para o desalento, mostramos uma imaturidade e irrealismo infantis.
Felizmente que no campeonato económico da globalização essas tolices contam pouco. Mas não admira que estejamos em crise e que a maior parte do que se houve acerca dela sejam disparates simplistas e ilusórios como no futebol.





4 comentários
Sobre a Golden Share não cabe aqui. Mas sobre o futebol é legítimo há que dizer que é legítimo haver outras expectativas precisamente por que os tempos são outros e as equipas mais capazes. Elas próprias se candidatam a essa expectativa que depois falham clamorosamente. Falhar não lhes retira valor, mas talvez as posicione na escala que estaria a ser generosa - valem menos do que querem fazer parecer por quem, por exemplo, aterra de helicóptero como se fosse um táxi a diesel.
Dizer o que afirma o articulista é o mesmo que dizer que a selecção portuguesa hoje em dia está muito melhor do que na pré-história, em que a bola provavelmente, a existir, seria quadrada.
Não há no meu comentário nada de pessoal, mas de facto nem sei por que se perde tempo a ler estas crónicas tão anteriores ao Big Bang! Que enviesam tão grosseiramente a realidade. É que não escapa quase nenhuma. Pior é impossível!