Política & Futebol
A despeito do quadrante ideológico de cada um, não deve haver quem não tenha saudades de Álvaro Cunhal, Mário Soares, Sá Carneiro ou Freitas do Amaral, protagonistas maiores do xadrez partidário decorrente da Revolução de Abril de 1974. Por essa altura, o grosso das despesas políticas estava confinado a personalidades da área do Direito e, por via disso, com uma visão mais humanista da sociedade.
Não se digladiavam os nossos políticos dessa época? Até o faziam de forma mais expressiva, mais contundente do que na actualidade. Só que eram verdadeiros campeões na táctica do conflito, na técnica da palavra. Ficava por aí o jogo político? Tinha também muito do sabor da causa, da arte do fundamento, do dom da competência, da dádiva da afeição.
E agora? E de há uns tempos a esta parte? Os economistas (e alguns engenheiros) tomaram conta do processo, apoderaram-se do sistema. Os números, acto contínuo, passaram a valer mais do que as pessoas. Pior, muito pior, as pessoas são números, são apenas números. A desumanização é da responsabilidade de muitos dos novos dirigentes partidários e dos seus séquitos, normalmente constituídos por maúças de yes men apostados no alpinismo político, ávidos de alimentarem o umbigo (e as algibeiras) a pretexto do apego à causa pública.
Com honrosas ressalvas, nos dias que correm, só faz carreira na política quem não é capaz de se bater (e de vencer) noutras actividades. Dá menos trabalho, exige menores aptidões e é mais compensador social e financeiramente. É assim que os novos políticos descredibilizam a política, essa tão estimável ciência. Quase sempre com a ciência da vassalagem, do clientelismo, do nepotismo.
A maioria dos dirigentes políticos assemelha-se aos dirigentes do futebol. Há anos, com tão raras excepções, a sua actividade era razão de reconhecimento e de prestígio social. Agora, também com tão raras excepções, a sua actividade é razão de suspeita e de desprestígio social.




