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OPINIÃO

Adeus

19 | 07 | 2010   21.39H
Luisa Castel-Branco

Despedi-me de ti para sempre, ainda que vá estar contigo esta semana, e na próxima, e nas que se seguirem.

Despedi-me de ti sem uma palavra, pelo contrário, trocámos conversa de circunstância, ou melhor, tu deste o tom, como sempre fazes, a comandar tudo e todos.

Despedi-me de ti e, de repente, foi como se a teu lado estivesse a outra que um dia fui, coisa pequena com onze anos, aquela a quem roubaste a infância, a juventude e tudo o mais.

Não estiveste sozinha na tarefa, é bem verdade. E nada teria acontecido se eu tivesse tido a inteligência, a força, o que queiras chamar, de não ter passado toda a minha vida tentando que me amasses, tu e os outros. Que me aceitasses, tentando descortinar nos teus olhos o amor que me era devido.

Enganei-me a mim estes anos todos, e agora que te digo adeus rezo para que o peso da tristeza, este buraco cravado no meu coração, desapareça de vez.
Já vivi mais de metade da minha vida em busca do que não existia, como uma cadela sem dono, só com três pernas, e que ninguém quer.

Digo em silêncio que tudo vai correr bem, tudo vai passar. Mas a dor é igual à que sempre foi e nunca me habituarei à desilusão, à constatação que, afinal, existem coisas que não são sagradas, a vida pode, pura e simplesmente, ser-nos cruel sem razão.

Talvez um dia eu te consiga desculpar, ou melhor, compreender. Mas por essa altura já deverei ter perdido a noção do real, porque, quando chegar ao fim da vida, a percepção do que realmente aconteceu e do que sonhei deverá ser tão difusa como as lágrimas que agora choro, pelos cantos da casa, pelos quantos da vida.

© Destak

1 comentário

  • Que dizer ou fazer!? Ruminar alimenta a vida de determinada espécie, mas não creio que a humana! De há quarenta/cinquenta anos para trás, a vida era mesmo assim, mas poucos são aqueles que dela se queixam. Todo o mundo deu o salto e todos entenderam os contextos em que foram criados. De uma sociedade de analfabetos e iletrados que tinha como principal objectivo a sobrevivência, pouco poderíamos esperar ou exigir. Cabe-nos a nós, com ou sem revolta, entender os tempos e as pessoas. De outra forma, seremos rigorosamente iguais a eles, muito embora com outra roupagem. Tal como os materiais que podem ser reciclados, também os espíritos se exorcizam. e os corpos se adaptam. É básico. A vida é constante de mudança e de adaptações sucessivas. Sobrevive ou vive melhor quem disso for mais capaz. Quanto aos outros, esses, estão eternamente condenados a morrer com sofrimento e sem paliativos que lhes valham. Pregar no deserto ou falar para o muro de Jerusalém, de nada mais nos vale do que sujeitarmo-nos à imcompreensão, desprezo e chacota dos outros. Para fugir a isso, nada como conhecermo-nos e entendermo-nos a nós próprios, antes de fazermos juízos dos outros. A maioria das vezes, o mal está em nós. Apenas que não somos suficientemente inteligentes nem temos a humildade suficiente para o saber reconhecer. A esse defeito, eu chamo claramente egoísmo e ou egocentrismo. Quer um quer outro, ou os dois, nunca nos deixarão viver em paz connosco próprios e, muito menos, com os outros. Sendo assim, olhemos o mundo que nos rodeia e retiremos dele o que ele tem de melhor, esquecendo as futilidades e vivendo o mais importante: a VIDA.
    LEILA | 20.07.2010 | 04.19Hdenunciar comentário
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