Portugal espancado
No recente Mundial, a selecção portuguesa só baqueou perante a Espanha, vencedora do certame. Um golo bastou, um golo apenas perante o mais sólido conjunto que se exibiu na África do Sul. E um golo legal, o único que Eduardo encaixou em 360 minutos? Um golo obtido de forma irregular. Falou-se disso? Vagamente, só muito vagamente. É que desmedida era a vontade de colocar as cabeças de Queiroz e de Ronaldo no pelourinho.
A tendência lusitana para o autoflagelo é crónica e bruta. Chegar aos oitavos-de-final do Campeonato do Mundo, integrar o lote das 16 me-lhores formações do Planeta pareceu coisa despicienda. Carlos Queiroz não imitou a façanha de Bartolomeu Dias? Seguiu-se uma espécie de depressão nacional, cujas chagas até prometem não cicatrizar no futuro próximo.
O que é que Portugal deu, futebolisticamente, na primeira década do novo século? Dois melhores jogadores do Mundo (Figo e Ronaldo), um melhor treinador do Mundo (José Mourinho), um campeão da Europa (FC Porto), cinco presenças ininterruptas nas fases finais dos Mundiais e dos Europeus. Que outras nações da bola ostentam semelhante registo?
E que dizer da realização, em 2004, do Campeonato da Europa? A UEFA reconheceu tratar-se do melhor evento até essa data. Portugal viveu um dos momentos emocionais mais contagiantes da sua história secular. Só mesmo o futebol, ultrapassado o pirronismo inicial (outra mácula tão distintivamente lusíada) poderia fazer disparar a auto-estima dos portugueses.
Conclusão? Não é na bola que se devem despejar as frustrações de um país desconsolado. Mais ainda, só com a bola, nestes últimos anos, tem sido possível disfarçar esse atávico complexo de inferioridade ou essa cómica altivez tão insuportavelmente nacionais. Depois há quem se queixe quando se diz que Portugal-sem-portugueses até seria outra coisa.





