O mosquito do Nilo
As férias. Finalmente. As estradas repletas de povo em movimento. Indiferente às portagens e ao preço dos combustíveis, a fila de carros serpenteia a majestosa rede viária nacional.
Para norte e, essencialmente, para sul, em busca de um Algarve sobrelotado. Há gostos para tudo. E muitos são os que gostam de disputar estoicamente um pedaço de areia e uma minúscula superfície de oceano, apenas a suficiente para um mergulho por entre magotes de banhistas que discutem a crise com água pelo baixo ventre.
A canícula pede umas cervejas e a maresia reclama umas sandes consumidas umas e outras com avidez e vigor. E quando o sol esmorece o enxame humano reencontra-se no lento peregrinar do final de jornada, onde esse odor agridoce de suor, sal e protector solar se mistura no ar e atordoa o perigoso mosquito do
Nilo, que sucumbe redondo antes de atingir as epidermes curtidas e temperadas. Depois, a noite. Uns de camisola de alças, calções e chinelos passeiam-se à beira-mar após um jantar abreviado; outros, de vestuário mais composto, preenchem restaurantes de moda a preços exorbitantes, vendo-se uns aos outros, porque, ao cabo e ao resto, lá vão precisamente para serem vistos.
Estes, resplandecentes no seu bronzeado de muito unto, ostentando cabelos emplastrados de gel, descapotáveis e outros adereços de exibição externa, substituem o palito pelo charuto e o dinheiro vivo pelo cartão de crédito. Uns e outros constituem esses dois países assimétricos que nem o mar consegue fazer confluir.
Mas, ao contrário do que pensam, têm muito em comum. A vontade frenética de viver tudo num só dia com medo do futuro, a alegria histriónica que esconde espíritos conformados, descrentes e temerosos, a fanfarronice com que se disfarçam as debilidades e fraquezas que se conhecem. Enfim, o ser português hoje. Porque, felizmente, nem sempre fomos assim. E nem sempre seremos assim. Boas férias.





7 comentários
"minúscula superfíce dd oceano"? (esta é de cátedra!); canícula e cerveja? (que elegância!) ; a Noite! (qual a sua ou a dos que não conhece?)
Final de jornada era, noutro tempo, final de um dia de trabalho (quase sempre ao serviço de outrem).
Deixe lá 8por agora) o mosquito do Nilo e respeite o unto (sabeo que é na tradição deste país?), e se se preocupa, efectivamente´, com o que pode vir a acontecer com o mosquito/ vírus do Nilo, comece a escrever em linguagem que se perceba. É que sabe? A litercia vai muito para lá do que parece considerar! Analfabeto funcional é, também, não saber isso!!!
A verdade é andamos mordidos pela tsé-tsé há 36 anos . . . !