Cortar na despesa
A mais infame das expressões políticas em Portugal é: «a despesa do Estado é incompressível». Quando o Sector Público prevê gastar este ano mais de 81 mil milhões de euros, quase metade do PIB, como pode ser impossível cortar?
A situação nacional é grave, mas tem a grande vantagem de ser simples de explicar. As últimas décadas criaram uma enxurrada de direitos, serviços, obras, exigências, garantias, benefícios. Gerações de políticos congratularam-se por acumular mais uma benesse para este ou aquele.
Nunca explicavam como se pagava. Cada uma era pequena e justificável; a totalidade é a ruína do Orçamento, que aumentou 60% em termos reais em 15 anos. Só se foi pagando porque a dívida cresceu, enquanto as sucessivas subidas de impostos, que nada resolviam, estrangulavam a economia. Agora, assustados pela crise, os credores internacionais perderam a paciência.
Não vale a pena fingir ou criar encenações. A solução não exige rever a Constituição, espiolhar o Orçamento, substituir o Governo. É só necessário um pouco de coragem e sentido de Estado. Depois há que conceber um programa sério, geral e responsável de redução equilibrada de benefícios (salários, pensões subsídios, apoios, obras e serviços), procurando manter a justiça mas cortando a sério a estrutura e ten-dência da despesa.
O FMI faz isso de borla. Não vale a pena dramatizar nem exagerar o sacrifício. A despesa só é incompressível se o poder político for mole.





10 comentários
Todos eles, sem excepção, preconizam o corte nas despesas temerárias contraídas pelos sucessivos governos, obviamente, constituídos por políticos sendo estes invariavelmente aconselhados pelos "sábios" economistas.
Esses grandes cérebros segregaram todas as crises que conhecemos no nosso país, pelo menos as que chegaram ao nosso conhecimento a partir da restauração da democracia em 1974.
Só que, qualquer corte, o mesmo é dizer, sacrifício a suportar pelos mais necessitados, não tem repercussão no estatuto de quem decide.
Isto porque não vi, até esta data, nenhum entusiasta das medidas draconianas do Fundo Monetário Internacional, diminuirem os proventos e chorudas reformas dos lideres políticos e seus assessores economistas, com fundamento no princípio de que a crise deve afectar todos em termos proporcionais.
Se é grave gerir um país com medidas irresponsáveis que conduzirão à banca rota porque é que não são chamados à responsabilidade, começando desde logo por lhes suspender o pagamento das suas remunerações de trabalho quer estejam no activo ou na reforma?
O Ilustre Economista Ernani Lopes, conhecido executor das medidas do FMI, lançou muita gente na miséria, sem dúvida milhares de famílias, com suicídios e doenças psiquiátricas, porém, nada lhe aconteceu em nome da propalada crise e dos sacrifícios que exigiu aos outros.
Foi este Ilustre Economista para o desemprego? Cortaram-lhe na reforma?
Teve alguma aflição em lhe poder faltar o dinheiro para o seu sustento ou o dos seus? - Claro que não, e continua a debitar sabedoris nos orgãos de informação.
Voltando à opinião "cortar na despesa" do Ilustre articulista, ora em apreço, muito gostaria de ver uma opinião sua sobre as benesses concedidas aos gananciosos accionistas dos bancos portugueses salvos pelos impostos dos contribuintes, para refazer a grande obra dos Srs. Economistas, especialistas da especulação financeira, entendidos nas teorias de Samuelson, Keynes, boys de Chicago e quejandos, mas que não resolveram um único problema de quem vive apenas e só da sua força de trabalho.
Não querendo arrajnar desculpas para a efectiva dívida galopante que afecta o país como é que o Sr. Dr. João César das Neves, consegue reduzir a despesa nacional se a agricultura está desactivada por culpa das imposições de Bruxelas ou da concorrência desleal da vizinha Espanha, se a indústria está entregue aos grandes empórios do Extremo Oriente de rentabilidade fundada em trabalho semi-escravo se as pescas supostamente rentabilizáveis devido à dimensão da zona exclusiva portuguesa, "rapinada" pelas frotas japonesa, russa e espanhola, por não terem existido lideres portugueses à altura que salvaguardassem a riqueza nacional.
Cortar na despesa, quando grande parte das prestações sociais têm obrigatoriamente de ser canalizadas para os desempregados e suas famíílias, não pelos seus lindos olhos, mas por medo da explosão social (vide os carros incendiados em França e as notícias de hoje da revolta contra a fome em Moçambique).
Onde está então a solidaridedade da União Europeia a que aderimos em nome de uma federação de estados.
Não se falava em 1973 nas grandes sociedades europeias, da França, Inglaterra e Alemanha? E bem assim dos Estados Unidos?
A quem pedir responsabilidades? Aos que esbanjaram os subsídios de coesão em vivendas e jipes? Aos que investiram na maior rede de auto-estradas da Europa? Aos que fazem negociatas de Faculdades de papel e lápis formando licenciados sem esperança e sem mercado?
De certeza que os políticos têm toda a responsabilidade, mas por amor de Deus não retirem os respectivos assessores, economistas, aliás, fautores da 2ª Grande Depressão dos Estados Unidos. O Sr. Doutor João César das Nves quer reduzir salários e subsídios de quem vive no limiar da pobreza?
É assim que se resolve a crise nacional? Quer mais sem abrigo nas grandes cidades? Voltamos à sopa do Sidónio?