Quem tem paciência para tanta demagogia?
Entre o discurso da 2ª rentrée de Sócrates e o discurso da 2ª rentrée de Paços Coelho, só fica lugar para um bocejar de tédio, se o leitor for do estilo passivo, ou um grito de indignação, se tiver um carácter mais intolerante e belicoso.
Como é que é possível que decidam começar o ano, e logo um ano de crise, com uma peça de teatro infantil tão previsível, com um diálogo do estilo: “Tu levas o país à falência”, “Não, tu é que levas!”, “Eu se quisesse podia fazer o governo cair!”, “Ha, Ha, experimenta e vais ver – olha que o meu pai é policia”, “Parvo”, “Quem diz é quem é”.
De tão envolvidos no disparate, já nem dão sequer pelo papel absurdo que fazem. Um corta empregos, subsídios, investimentos a mando do FMI, mas põe a mão na anca e grita: “Ó meu palerma, tens a lata de propor o despedimento sem justa causa, subsídios e investimentos, pá!? Então tu metes-te assim com as conquistas revolucionárias dos trabalhadores, e achas que a malta fica a ver?”, enquanto que o outro que defende, de facto, a mudança das leis de trabalho e a alteração do Serviço Nacional de Saúde tal como os conhecemos, grita “Socialista de um raio, estás para ai a trair a malta que trabalha, com despedimentos e cortes, e ainda por cima vais ao bolso de quem paga impostos?”.
De facto, quem tem razão é Jerónimo de Sousa quando diz que o primeiro-ministro sofre de dupla personalidade, e só falha porque não estende o diagnóstico ao líder da oposição.
Esqueceram-se, ambos, do aviso do The Economist que, em Março do ano passado, lembrava que neste momento de recessão económica grave, os eleitores não têm qualquer paciência para políticos que colocam as suas birras e guerrinhas à frente dos interesses do país; que não falam verdade, preferindo a demagogia.
Mas será que acreditam mesmo que somos todos estúpidos e não vamos perceber que temos menos poder de compra, menos dinheiro, menos emprego, sem que ninguém tenha a coragem de assumir e explicar o que se passa, e sem apresentarem propostas de como podemos sair deste buraco?






6 comentários
E já lá vão 36 anos . . . !