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VENENO

O que fica de nós nos outros

01 | 02 | 2008   12.45H
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

Há pessoas que a cada gesto pensam como é que este será lembrado depois de morrerem. É como se a vida não lhes chegasse, e só a ideia da imortalidade os consolasse. É por isso que gravam o seu nome a canivete na casca das árvores, ou o esculpem numa rocha. Querem perdurar, marcar a sua presença no planeta. Não suportam, como nenhum de nós se for verdadeiro consigo mesmo suporta, não contar para nada, só que não conhecem o caminho certo para se plantarem no coração dos outros, o único sítio onde a imortalidade existe.

Os mais perdidos, parecem reger as suas conversas, as suas opções profissionais políticas e amorosas, pela vontade de construir, aos seus olhos, um currículo modelo, que figure bem em qualquer biografia póstuma. Casam com alguém de quem não gostam, mas que pertence a uma família que julgam reputada, aceitam cargos que não lhes apetece desempenhar, porque estão convencidos que vão ficar nos anais da história, falam com os outros como se estivessem sempre a fazer um discurso que esperam, um dia, ouvir citado, ou mesmo transcrito em livro. Ao falar dos filhos, nunca contam uma história cómica, um erro ou uma falha, nem descrevem como a sua sensibilidade, honestidade ou generosidade os comoveram, limitando-se a relatar as notas, os sucessos escolares ou desportivos, a procurar por todas as formas provar a quem o escuta que os genes maravilhosos do pai, ou da mãe (raramente atribuem o resultado a uma conjugação dos dois!), puderam muito. Sentem-se, no fundo, tão vazios, tão sozinhos, que já não esperam nada do presente, e têm que investir tudo em PPR, em acções na bolsa, que um dia terão uma cotação de fazer abrir a boca aos corretores de então.

Depois há os outros, os que vivem cada dia como se fosse o último, tentando transformá-lo à imagem das suas convicções. Não acreditam que o destino, muito menos uma entidade superior, seja responsável pela desigualdade entre as pessoas, pela injustiça, pelas fracas condições de trabalho, pela burocracia e por tudo o que torna a humanidade menos humana. São pessoas que, sem pensarem sequer nisso, transformam a vida de quem está por perto, porque exigem muito, sim, mas porque também dão tudo de si, na construção de um mundo melhor. Contagiam os outros, que de repente se sentem mais fortes, e mais capazes, e percebem que afinal é possível.

Por vezes são insuportáveis, porque não parecem dar tréguas a ninguém, nessa sua ânsia de não deixar para amanhã o que podem fazer hoje, e precisamos de fugir delas, por um bocadinho, porque às vezes parecem querer arregimentar-nos, e já não sabemos se as seguimos por medo ou admiração. Precisamos de encontrar, então, as nossas próprias motivações, e mesmo que a decisão seja seguir por caminhos diferentes, a rota será sempre marcada pela experiência anterior.

Estas pessoas não precisam de pensar na imortalidade, nem no que fica delas para o futuro. É menos um trabalho que têm. De facto, seria tempo perdido, porque marcam de tal maneira quem se cruza, mais ou menos longa e proximamente com elas, que deixam partículas de si nos outros. Partículas que germinam e, algures entre a alma e o cérebro, os pulmões e o fígado, que até hoje os neurocientistas ainda não descobriram bem onde é que os outros se alojam dentro de nós, e perduram para sempre. Por vezes ficam adormecidos dias, semanas, meses ou anos, mas nos momentos importantes, nos segundos em que se tomam as decisões vitais, saltam do seu sono e reaparecem sob a forma de génios da lamparina prontos a ceder-nos a sua luz, e, quem sabe, a garantirem-nos três desejos, na condição, claro, de sermos nós a fazer por eles.

A imortalidade de alguém não está decididamente nos genes que deixam, mas na forma como nos conseguiram mudar, no modo como contaminaram irremediavelmente os nossos valores, as nossas prioridades, aquilo que os nossos olhos são capazes de ver. Perduram, depois, nas coisas pequeninas, nos pequenos gestos, em palavras que usamos, e que, ao pronunciar, nos trazem, de repente, o sabor daquela pessoa, em atitudes que tomamos, em opções que fazemos. Perduram em sensações que nos «atacam» quando menos esperamos, na impressão, tão segura que podíamos jurar ser verdadeira, de que, aqui e agora, acabaram de nos passar a mão pelos cabelos, entrelaçando os dedos nas suas raízes, num gelado de morango, que não queremos que chegue ao fim. E não é irreverência nenhuma (re)descobri-las aí, e não nos retratos a óleos pendurados em pesadas molduras douradas, nem em compêndios fechados em bibliotecas. Porque as pessoas importantes permanecem vivas dentro de nós, que é exactamente onde deviam encontrar morada.

© Destak

4 comentários

  • O quê? Não conhece a Isabel Stilwell? A "super-tia" do jornal "Destak"? Que grande maroto.
    Garcia | 06.02.2008 | 22.27H
  • Péssima fotografia da directora deste pasquim no editorial. Poderiam ter escolhido um retrato melhor. A imagem da mulher idosa armada em jovem confiante, com pelancas, já não resulta.
    Miguel Botelho | 06.02.2008 | 14.36H
  • obrigado isabel
    t | 04.02.2008 | 08.28H
  • Hm.. depois disto tudo não sei se consigo perceber a razão da palavra 'veneno' imediatamente antes do título desta seu artigo, Isabel...
    HM? | 02.02.2008 | 21.50H
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