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EDITORIAL

Inimigas de si mesmas

13 | 02 | 2008   08.19H
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

A divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres é muito mais complicada do que parece. Se a nível «ideológico» as respostas são cada vez mais politicamente correctas, na prática continuam a ser elas a cumprir a quase totalidade do trabalho que implica ter família. Mas a leitura destes indicadores não é a mais óbvia.

É claro que ainda há homens, e alguns até são ou foram ministros, que consideram que o sexo masculino não tem jeito para a cozinha, ou que preencher declarações de impostos são coisa apenas para o sexo masculino. Mas a verdade, verdadinha, é que as piores inimigas das mulheres são as mulheres. E as mães delas, e tudo o que a educação, de propósito ou sem querer, lhes enfiou na cabeça.

Porque a grande armadilha é que muitas mulheres (todas?!?) só se sentem bem se acumularem, mesmo que refilando pelo caminho, todos os papéis que lhe são atribuídos, desde os mais recentes aos mais antigos. Desejam ser super-mulheres, as mais competentes das profissionais, a melhor das mães, esposas e amantes, e além disso cozinheiras e costureiras, porque um botão caído na camisa de um marido é suficiente para as desestabilizar, porque ter a roupinha do «nosso homem», e dos nossos filhos, em ordem, é mais um dos símbolos exteriores de uma mulher perfeita.

O pior, queixam-se, e com toda a razão, alguns homens, é que as mulheres não querem partilhar as tarefas num princípio de igualdade e responsabilidade, mas apenas delegá-las, guardando para si o direito de classificar, de zero a vinte, o trabalho da sua cara metade. Se eles lavam a loiça, elas confirmam se está impecável, se vestem os miúdos, passam-nos em revista, protestando com o facto das meias não condizerem com o casaco. É difícil ajudar uma mulher, e ainda mais compreender porque é que se «leva na cabeça» quando se acreditava ter feito tudo certo.

Por isso defendo que o princípio da paridade tem, antes de mais, de ser assumido pelas mulheres. Só depois disso os números deixarão de mostrar uma realidade tão chocante.

© Destak

10 comentários

  • Pois é! Mas temos de fazer por isso, não é?

    Infelizmente, tenho amigas da minha idade que pensam exactamente como a Isabel. Quando lhes pergunto se já ensinaram o filho de 9 anos a passar uma camisa, que não, que por isto e por aquilo. quando lhes pergunto se já ensinaram a filha de 9 anos a passar uma camisa, que já, porque a minha filha é muito organizadinha e por que .. e por aí adiante.

    Temos de nos esforçar.

    Eu, feminina assumida, ainda tenho tendência para pensar que a responsabilidade de algumas coisas em casa ainda é minha. Tenho de, por vezes, parar e pensar: espera lá, eu NÃO tenho de fazer isto; ele está com pressa, as calças estão por passar a ferro, mas .. as calças são dele .. ele passa-as.

    Não quero com isto dizer, que eu passo as minhas roupas e ele que passe as dele. Para isso, vivia cada um em sua casa.
    Quero apenas dizer que eu não tenho de me sentir culpada porque as calças não estão passadas .. ou então ter de ir a correr passar as calças do homem ..

    Sabe qual é o verdadeiro problema?

    As mulheres fazem estas coisas todas, porque as entendem como mimos que fazem aos seus companheiros, maridos, namorados, amantes, filhos .. Ao dar estes mimos todos (tratar deles, como se fossem putos), esperam receber mimos também.

    Desenganem-se. Os homens não funcionam assim .. :-)

    Os homens dão mimos, não a quem é "boa esposa". Os homens mimam a mulher que os desafia ..

    Voilá!
    39 anos | 19.02.2008 | 17.39H
  • Finalmente uma mulher que diz a verdade. É exactamente isso, a minha esposa quando me pede ajuda, delega tarefas. E então com o nosso filho, é exactamente assim, nada que eu faça - a comida que lhe dou, onde o deixo brincar, como o visto - está completamente bem. Ela é como se fosse a fiscal de linha da coisa, e eu sinto-me mais empregado a tomar conta do menino do que pai. As coisas só não dão para o torto porque eu próprio acabo por achar que aquelas são mesmo funções de mulher e de mãe. E é assim que o círculo vicioso se perpetua. obrigada de qualquer maneira por ter passado a escrito os meus pensamentos.
    Rogério Carvalho, Oeiras | 15.02.2008 | 15.20H
  • Acho que não há como comentários provocadores, para nos fazerem pensar. Mas não podemos ficar-nos por esta ideia, como se as mudanças de políticas de apoio à família não fossem fundamentais. A mulher pode não aceitar dividir tarefas com o marido, mas aceitava de certeza um horário mais fléxível e apoio no seu dia a dia, nomeadamente a nível de creches e jardins de infância. Não para delegarem no Estado o cuidado dos filhos, para trabalharem ainda mais horas fora, mas para poderem ter uma vida mais fácil
    Teresa Macedo, Porto | 14.02.2008 | 23.32H
  • Felicito-a, Dona Isabel, por esta pequena mostra de uma certa tendência evolutiva dos seus textos, revelando também já algum entendimento daquilo que é "pensamento divergente", e assim estar um pouco mais direccionada para o que muitos consideram o caminho para a verdade e clarificação das coisas. Parabéns. Seria interessante que nesse sentido continuasse. No entanto, não posso estar mais de acordo com o que diz o SUBVERSIVO, pois na realidade todas estas pequeninas questões se tornam mais pequeninas ainda e, de uma certa forma, perversas até, quando na realidade à nossa volta tantas questões há que merecem que meditemos nelas, se queremos ser realmente úteis, em vez de simples entretedores de quem, no actual momento, goza de conforto suficiente para se exprimir como o EURICO FIGUEIREDO, que considera assuntos como o Iraque deprimentes. Não me parece que o SUBSERSIVO estivesse propriamente a sugerir que os textos de um jornal devessem todos ser sobre a invasão ilegal do Iraque, e que passassem os dias a falar daqueles enforcamentos ilegais, por exemplo. O que me parece é que o SUBVERSIVO quisesse apontar como uma atitude miserável esta do simples arredar de certos assuntos da informação só porque já não são muito favoráveis, obstruindo assim os cidadãos de saberem sobre eles, o que no futuro poderá vir até a ser classificado de "sabotagem informativa". Tem-se a informação, mas não se informa. Há que ter a mesma coragem de falar e discutir esses assuntos importantes em todos os momentos. Ou então são corajosos quando é fácil, mas logo se acobardam quando deixa de ser fácil. Meter o rabo entre as pernas e disfarçar não será propriamente dignificante. Se assim pensarmos, não haja dúvidas de que estes artigos que a Dona Isabel aqui escreve passariam de escritos de pensamentos leves, a lamentáveis, dado provirem da própria direcção do jornal, e, por isso, de alguém de quem seria esperável uma consciência mais ampla do mundo actual. Transformar a nossa actualidade, que é preocupante e exige de todos nós meditação profunda (o mundo está a mudar, assim como as concepções e os valores das coisas) no rol das questões que diariamente aqui aborda, parece demasiadamente naif. Por isso, sugiro-lhe que dê uma vista de olhos às notícias do mundo, em www.worldnews.com, por exemplo, antes de escrever os seus artigos cor-de-rosa, ou de lutas entre homens e mulheres (ou sobre o sexo dos anjos). Ou, se calhar, o mal talvez esteja em nós, dado termos colocado demasiadas expectativas neste espaço informativo. Ou então, talvez seja o bem que está do nosso lado, dado compreendermos as excelentes potencialidades deste espaço e, desta forma, queiramos incentivar-vos para que não o desperdicem. Cumprimentos. Bom trabalho.
    CIF-LIMÃO | 14.02.2008 | 12.06H
  • SIMONE DE BEAUVOIR

    A companheira de Jean-Paul-Sarte feminista
    no sentido machista do termo, escreveu o livro
    O Segundo Sexo como que o segundo fosse o
    primeiro!
    O famoso fotógrafo Art Shay , “sem permissão”
    de Simone, fotografou um nu de costas da grande
    escritora!
    Esta fotografia foi capa de revista para comemorar
    os 100 anos do seu nascimento

    Zé Ernesto – Gaia – PORTUGAL
    http://zuluechopaparomio.blogspot.com
    POETÁRIO =
    Zé Ernesto -V. N. de Gaia | 14.02.2008 | 01.15H
  • Este subversivo é mesmo deprimente. Para todos os chatinhos como o subversivo, o meu conselho é andarem de autocarro e lerem o jornal "Destak".
    Eurico Figueiredo | 13.02.2008 | 23.01H
  • Em vez de escrever sobre "os beijos", "O dia de São Valentim", "O casal McCann" ou "A guerra dos sexos", porque não escreve sobre algo verdadeiramente interessante? Algo que faça acordar os portugueses que andam meio adormecidos nos autocarros? Por exemplo, já ouviu falar no Iraque? Leia esta notícia e pense no que está a acontecer no médio oriente: http://www.uruknet.info/?p=m41072&hd=&size=1&l=e
    4 milhões de iraquianos a lutar por comida... Isto faz pensar.
    Subversivo | 13.02.2008 | 19.37H
  • Boa analíse da situação, ainda que torça um pouco o nariz à teoria da boa selvagem, que a educação/sociedade "educa".
    Alfredo Marques | 13.02.2008 | 16.45H
  • Assumido pelas mulheres com naturalidade, sem feminismos histéricos, como é tentador fazer em certos momentos. Aliás, querendo, as mulheres conseguem fazer essa mudança... basta que queiram mesmo. Afinal, o que é que uma mulher não consegue quando quer mesmo?
    João Serra, Lisboa | 13.02.2008 | 09.32H
  • Concordo!!! Não podia estar mais correcta na sua análise.
    o justiceiro | 13.02.2008 | 09.24H
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