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OPINIÃO

Crónica da desgraça anunciada

25 | 11 | 2010   21.01H
J.L. Pio Abreu

O orçamento derrapou, sabem porquê? Porque se anunciaram restrições, e não houve director, presidente ou autarca que não desatasse a gastar dinheiro enquanto podia dispor dele. Aumentou o consumo de medicamentos, sabem porquê? Porque se anunciou que eles ficariam mais caros, e não houve doente que não os comprasse enquanto eram mais baratos.

Quando se anuncia a taxação dos dividendos, não há accionista que não os queira enquanto não forem taxados. Se, por uma crise social, se adivinhar que faltará o abastecimento de bens essenciais, começará sem dúvida o açambarcamento, fazendo apressar a falta. Se alguém souber que um país sairá do Euro, as notas vão sair do circuito económico e dirigir-se rapidamente para debaixo dos colchões.

São os nossos Chicos Espertos? É verdade que sim, mas quem os pode condenar quando seguem o exemplo dos mais respeitáveis gestores? O erro, no mundo em que vivemos, é anunciar a desgraça. Tal como na psicologia humana, só o optimismo, mesmo contra as probabilidades, se torna saudável. Os optimistas sabem que a desgraça é possível e que poderão vir a enfrentá-la, mas apostam antes na esperança e até podem ganhar.

Viver a pensar no mal que nos pode acontecer é doentio. Causa infelicidade e apressa o próprio mal. No mundo de hoje também é assim. Mas a sociedade, ou parte dela, ou a sua parte mais visível, está doente. Anuncia o mal, causa infelicidade e abre o caminho para a desgraça.

© Destak

10 comentários

  • A desgraça vinha sendo anunciada, de mansinho, desvalorizando os factos, escondendo-os, e nós sempre optimistas. Não valeu a pena, como se vê. Com as mesmas políticas seguidas até agora, não vamos a lado algum. Realmente não percebo muito de economia, mas sei reconhecer um mentiroso, nem sempre, mas dos anunciantes destas medidas não tenho dúvidas, até agora ninguém mostrou uma solução viável para não cair ainda mais em desgraça; mas todos eles continuam a sorrir. Prefiro a verdade dura, e ninguém a diz. Vale a pena vivermos enganados? Optimisto individual em doses equilbradas é bom, ou entraríamos numa espiral descendente com consequências drásticas. Ainda acabávamos por precisar dos serviços do doutor...
    pac224 | 02.12.2010 | 17.25Hdenunciar comentário
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  • "Mas a sociedade... está doente."
    Não é o caso deste governo, que 99,9% anunciou esperança (para não dizer mentiras).
    Quanto ao senhor... Veja lá! É muito difícil fazer um diagnóstico sobre si próprio!...
    li | 29.11.2010 | 19.37Hdenunciar comentário
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  • Políticas socialistas esquerdistas despezistas, em que os sucessivos OGE são documentos onde o descontrolo financeiro e o descalabro orçamental é reinante por incompetência, corrupção e falta de planeamento, associadas a uma total falta de regulamentação da actividade bancária relativa à concessãp de crédito, levaram a esta situação preocupante. Agora a única solução é diminuir a facilidade com que se obtem crédito, reduzir todas as despezas com o sector público, e finalmente combater a incopetência e o crime na admistração da coisa pública. Austeridade, responsabilização e prudência e mais austeridade, porque há 10 anos que muito boa gente alertava para a necsssidade de medidas destas.
    JM | 29.11.2010 | 13.30Hdenunciar comentário
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  • A parte mais visível da sociedade é o conjunto dos que sofrem as consequências da falta de planeamento e gestão rigorosos e honestos dos que se propuseram, porque foi sua opção, a velar pela saúde da economia do país,e não a tirar daí partido e proveito pessoal.Depende tudo dos objectivos que os políticos eleitos se propõem atingir...A economia não é o mesmo que a psicologia mas ambos lidam com com pessoas e não com números, assim como os políticos que estão de permeio.
    maria louraço | 29.11.2010 | 00.05Hdenunciar comentário
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  • Quer dizer, portanto, tudo isto que está a acontecer às economias dos países, as falências, o descalabro, o passar-se a jogar com as vidas de milhões de pessoas e suas nações como quem joga na bolsa, foi tudo bem planeado pela economia... e mais ainda, com certeza, por financeiros. No entanto, é bom que tenham planeado mesmo bem, pois cada vez estamos mais fartos das opiniões de economistas e de financeiros, mas também dos seus amigos psicologistas e psicólogos, pois o resultado desse reinado é esta confusão global que se vê, e que se vai sentir na pele. Pode em economia a coisa ser uma coisa e na psicologia outra, mas o que na verdade toda a gente irá perceber é que com as pessoas não se brinca... o Mundo não erra, está somente em evolução, e o seu grande objectivo é a remoção dos Mentirosos.
    GGS | 27.11.2010 | 10.41Hdenunciar comentário
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  • «O erro, no mundo em que vivemos, é anunciar a desgraça.» Talvez na psicologia isto assim seja, mas não em economia. Em economia o problema não é anunciar a desgraça mas sim não preparar a sua chegada convenientemente. Se calhar em psicologia a culpa é do emissor, mas em economia não, a culpa não é do emissor, a culpa é do planeador. Mesmo que sejam um e o mesmo. «Tal como na psicologia humana, só o optimismo, mesmo contra as probabilidades, se torna saudável.» Talvez na psicologia isto assim seja, mas não em economia. Em economia não há pessimismo nem optimismo, há expectativas. São coisas diferentes. Eu explico-lhe. Se um agente económico se habitua a mensageiros falsamente optimistas, adapta a sua «expectativa» e o optimismo do mensageiro passa a valer o mesmíssimo do pessimismo ou do benfiquismo: zero. «Os optimistas sabem que a desgraça é possível e que poderão vir a enfrentá-la, mas apostam antes na esperança e até podem ganhar». Talvez na psicologia isto assim seja, mas não em economia. Em economia, se o optimista apostar na esperança e nada planear e outro tanto fizer, pode ganhar e pode perder na mesma medida do pessimista ou do benfiquista. Em economia, o que marca a diferença não é a abordagem escolhida «à esperança», o que marca a diferença é a preparação que se faça para a chegada dos problemas. Em economia o que aumenta a probabilidade de poder ganhar é ser «precavido» e «pró-activo» na preparação. Senhor Pio, se o sucesso económico se medisse em mensageiros optimistas, mesmo que aldrabões, Portugal era uma superpotência económica. O que nos faz falta não são «optimistas» nem «pessimistas» nem «benfiquistas» nem sportinguistas» (para não ofender ninguém). O que nos faz falta são «planeadores» e «pensadores» e «executores» económicos. Quer um exemplo? É irrelevante o nosso «ismo» face à evolução evidente de uma sociedade de muitos trabalhadores a produzir para poucos reformados, para uma sociedade em que o rácio se inverte. Podemos andar a chorar baba e ranho todos os dias sobre o tema, aos pinotes de alegria ou nesciamente despreocupados. É igual. Isrto é macroeconomia. Em macroeconomia a realidade não muda pelo nosso choro ou sorriso. O que definirá a melhor ou pior forma como enfrentaremos essa realidade imutável é a preparação que fizermos agora. Hoje. Na verdade, a que devíamos ter começado a fazer ontem.
    Nuno Silva | 27.11.2010 | 10.15Hdenunciar comentário
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  • Eles não só anunciam desgraça: eles trazem mesmo a desgraça. Cada vez mais salta à vista desarmada que existe para aí um bando de criminosos a actuar na penumbra a querer rebentar com as estruturas dos países mas também com as populações. Começamos a perguntar-nos porquê. É urgente encontrarem-se respostas a essa pergunta. Caso contrário, dentro em breve as pessoas não conseguirão mais soltar-se da armadilha: http://www.youtube.com/watch?v=UdtLTyNOB0A&NR=1
    VIDA ARMADILHADA | 26.11.2010 | 19.27Hdenunciar comentário
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  • Gostei!
    Sobretudo da "a [...] parte mais visível da sociedade, está doente". Vejam bem se percebem o alcance desta frase.
    anónimo | 26.11.2010 | 17.36Hdenunciar comentário
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  • Meu caro JLPA, aqui não há nada de novo . . . !
    A essência humana é isto mesmo . . . !
    A banalidade do mundo moderno tem levado a valorização desmedida da aparência, em detrimento do ser . . . !
    É por isso que o outro tinha razão quando disse:
    "Xi patrão, estes branco pisou meu pé e ainda me disse pra sorri" . . . ? !
    alexandre barreira | 26.11.2010 | 07.28Hdenunciar comentário
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  • Excelente crónica Doutor!
    Pegando nos dois últimos períodos da mesma. permito-me acrescentar que esse pessimismo está as mais das vezes associado ao(s) medo(s). Se o medo pode ser nosso amigo, porque nos protege, pode também ser dos mais perniciosos motores da acção humana. Concordará comigo, estou em crer. E é mais pernicioso ainda quando, por causa dele, muitas vezes agimos à defesa e, sem nos darmos conta, nessa defesa passamos muitas vezes ao ataque. Nesses momentos, muito frequentemente, agimos como estúpidos sendo que o mais nefasto dos estúpidos é aquele que prejudica os outros sem retirar nenhum benefício para si próprio (Carlo Cipolla). Mesmo os que mais se preocupam com a sensibilidade alheia, muitas vezes, agem como estúpidos. porque o medo, lhes tolda a clarividência. Acontece, até, aos mais intuitivos...
    Quando tal ocorre e a isso se alia a adição do orgulho, os danos podem ser irrepatáveis! Claro está, que os mais impulsivos quando se sentem atacados, por norma, atacam, vulgo, ao coice. Ora, das duas três - entra-se numa espiral de violência; as relações ficam cortadas;ou age-se com inteligência e humildade e os resultados logo se hão-de ver...
    Aconteceu-me, há pouco tempo, magoar alguém a quem quero e sempre quererei muito bem. Joguei à defesa ... aquilo que me parecia uma certeza, poderia ser afinal um caso de " (,,,) mistaken identity...". Caiu-me o Carmo e a Trindade, mas o que realmente me ficou, foi o gosto amargo de ter magoado alguém a quem nunca quis ou quereria magoar. O que está feito, feito está, mas tenho que pedir desculpas pelo ocorrido. Diz-se que as desculpas não se pedem, evitam-se; pois assim será, para quem age reflectidamente com dolo com dolo. Obrigada Doutor! Foi bom sentir alto consigo.
    Desconfioudaintuição | 26.11.2010 | 02.02Hdenunciar comentário
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