O ritual das sanguessugas
Odoente até não estava muito mal. Tinha andado a comer de mais para prevenir a penúria que lhe fora imposta por Wall Street. Mas estava sob controlo. Os antigos diziam que era bom engordar antes de crescer, mas a nova medicina preventiva diz que não. Então, cumpridor, o doente começou a fazer dieta. E lá ia andando numa difícil mas visível recuperação.
O problema é que não falava a uma só voz e, enquanto a consciência lhe sussurrava esperança, as vozes subterrâneas queixavam-se, e bem. O doente tornou-se hipocondríaco e ficou indeciso quanto ao que fazer. Neurótico, entrou em autoflagelação e as hemorragias internas puseram-no nas mãos dos médicos oficiais.
Vieram os médicos, por acaso bem gorduchos. Os médicos do regime são assim. Desconfiam dos antigos tratamentos e prescrevem as novas receitas: transfusão de urgência e sanguessugas pelo corpo fora. Ingénuos, esperam que o doente produza o seu próprio sangue. Mais, não sabem.
O doente estava fraco e exangue. Nem concordava com este tratamento, ele até tinha tentado as medicinas alternativas, mas já não tinha voz activa. Foi definhando, coitado. Os médicos do regime acompanharam-no até ao fim. Elevando os olhos para o Céu, entoaram os cânticos. Desejaram paz à sua alma. Depois retiraram as sanguessugas e arrumaram-nas nas suas caixinhas. Ao todo, traziam mais sangue do que aquele que fora usado na transfusão. No fim, e por um desígnio oculto da medicina moderna, entregaram o corpo aos cães.





23 comentários
A tua escrita tem um ritmo quase poético. Usas boas imagens, adorei a do peido junto da leve aura perfurmada. E o espectral e o vácuo também vão muito bem juntos. Ainda dizem que o sitema educativo vai mal. Que tolice, agora até os broncos-kid se parecem a Pessoa.
Allien tem um toque metálico. Quando cresceres vais perceber a beleza da porcelana. Até lá bons cheiros. E não fiques todo lixado, isso não é nada boa onda!!! Vai mas é dar uma ... que isso passa-te.
Cumprimentos
Como analisará Vª Exª a personaltdade dos vulgo chamados Yes Men?
Cá para mim, ou padecem daquele esfado de alma "ledo e cego", conforme aos que estão apaixonados, ou então situam-se naquele "escol" de gente que, mal o "líder " é confrontado com fundamentadas opiniões diversas, se erguem, de insulto em riste, e não escondem o desejo de ostracizar os que ousam expressar o seu modus cogitum. Neste escol incluiram-se todos os inquisidores, membros das SS, do KGB, da Pide, ...
Esta é a minha mui modesta opinião, mas muito gostaria de conhecer a sua sabedora e profissional análise.É que estou sempre aberta e disposta a aprender mais.
Antecipadamente grata
É com alguma tristeza que no meu singelo entender percebo uma tendência regressiva na qualidade das suas crónicas!!!
E o que dizer dos comentários? Depressivos, limitados, muito egocêntricas, como se os comentadores gozassem de uma ligeira esquizofrenia associada a personalidades de indivíduos muito sabedores e competentes que conseguiam fazer muito melhor que qualquer "incapaz" político.
Como se chama em psiquiatria a este quadro patológico de auto-convencimento de sabedoria que para olhares externos revela pobreza de espírito e mediocridade? O "maluco das malguinhas" é talvez o mais coerente e poupado na sua síntese de entendimento do mundo!!!
Foi o professor que foi atraído pela psiquiatria ou será que o professor é que tem uma propensão natural para atrair para sí os maluquinhos? A cada crónica mais subjectiva, cibernética, mitológica ou com laivos esotéricos, somam-se os comentadores com a náusea do subúrbio.
Por tudo isto e porque aprecio muito a qualidade e interesse das suas crónicas venho pedir-lhe o favor de voltar ao registo da informação rara que não aparece na espuma dos "mass-media", à análise simples, sem tábus e sem complexos e medos de confrontar as ideias e "verdades" dominantes.
Penso que desta maneira poderei usufruir "à borla" de boa informação (uma das minhas poucas adições) conseguindo também desta forma afugentar as mentes "complicadas" que aqui comentam. Tenho medo que a "sabedoria" deles se pegue!
Para conseguir isso aconselho-o a um bom mergulho (a água dá-nos sempre a sensação do renascimento pessoal) e depois de se rir um bom bocado com qualquer coisa, volte a escrever e vai sentir-se muito melhor com a diferença na qualidade das crónicas (Penso que é num auto de Gil Vicente que alguém (talvez o bobo) dá conselhos ao bispo sobre o que deverá dizer para ultrapassar o S.Pedro e entrar no Paraíso. Este conselho tem o mesmo atrevimento, mas é também uma forma de pagar as boas crónicas que de si tenho recebido).
Li atentamente o seu comentário e fui mesmo ouvir a entrevista, dada por Marinho Pinto à TSF. Permito-me, todavia, discordar da proposta do Sr. Bastonário, que o caríssimo subscreve. Passo a explicar: o momento histórico que vivemos é delicadíssimo e mesmo muito perigoso. É propício à instalação de toda a espécie de radicalismos, que não subscrevo e que, na minha modesta opinião, são de evitar a todo o custo.
Num quadro relativamente semelhante, Hitler ganhou as eleições e foi o que se viu... Sou adepta da democracia, mas repudio a partidocracia em que este país caiu, sob a capa de democracia. Essa partidocracia conduziu-nos paulatinamente ao descalabro em que nos encontramos. Todos são, somos responsáveis. Ninguém está inocente. Uns mais do que outros, sem dúvida. Falta-nos patriotismo, orgulho de sermos quem somos e há que recuperar
conscientemente, esse atributo. Concordo em absoluto, que urge dar cartão vermelho a estes partidocratas, que se degladiam pelo melhor pedaço, mas sem comprometer o regime democrático que, pese embora estar desvirtuado, é uma das melhores heranças da civilização europeia. A abstenção pode ser lida, não como uma afronta a esta pseudo"elite" dos nossos pseuso"responsáveis políticos" (Marinho Pinto), mas sim como um não ao regime democrático. Assim sendo, parece-me que o verdadeiro cartão vermelho seria o voto em branco, nem sequer o nulo. Exerce-se o poder que o regime aufere aos cidadãos, e estes afirmam inequivocamente que assim NÂO! Depois de levarem essa bofetada de luva branca, que cá para mim alguns precisavam mesmo era de levar uns bons bofetões, esses senhores que pensem, que pensem, e o Senhor Presidente da República que descalce a bota, porque se foi eleito é para fazer algo de jeito por este país e pelo seu povo. Os que são honestos, competentes e patriotas, que os há ainda graças a Deus,
agarrem, por favor, o desígnio de endireitar este país. E a cada um de nós cabe dar o seu melhor.
As minhas desculpas pela demora. Cumprimentos
Mais acrescento: Edgar Morin, na sua obra “ Repensar a Reforma Reformar o Pensamento A Cabeça Bem Feita” afirmava em 1999: « Ora o conhecimento pertinente é aquele que é capaz de situar toda a informação no seu contexto e, se possível, no conjunto em que se inscreve. (…) Assim, a ciência económica é a ciência humana mais sofisticada e formalizada. Contudo os economistas são incapazes de acordarem as suas predições que, muitas vezes, são errróneas. Porquê? Porque a ciência económica isolou-se das outras dimensões humanas e sociais que lhe são inseparáveis. Como diz Jean-Paul Fitoussi4 , «Hoje, muitos disfuncionalismos procedem do próprio enfraquecimento da política económica: a recusa em afrontar a complexidade»... A ciência económica é ainda mais incapaz de encarar o que não é quantificável, isto é, as paixões e as necessidades humanas. Assim, a economia é, simultâneamente, a ciência mais avançada matematicamente e a mais atrasada humanamente. Hayek disse: «Ninguém pode ser um grande economista sendo apenas economista». Acrescentou mesmo que: «um economista torna-se prejudicial e pode constituir um grande perigo».» Sublinho que isto foi escrito em 1999! Os factos falam por si, não é verdade?
Atrevo-me a recomendar vivamente esta obra de Morin a quem se interesse verdadeiramente, em particular, pelas questões da educação e em geral pelas questões da política, da intervenção cívica consciente, da mudança de paradigma desta sociedade estafada.
Para aqueles que tanto criticaram e criticam os professores, busquem informar-se devidamente sobre as políticas que a tutela veio impondo e cotejem-nas com o pensamento deste autor. Claro está que há professores(as) que nunca o deviam ser, como aliás acontece com todas as categorias profissionais.
Concedo concordar consigo quando fala de vozes subterrâneas, só que não serão talvez as mesmas vozes. Mas que são subterrâneas, lá isso são e urge pô-las à superfície. É que se tal não acontecer e rápido, essas toupeiras nojentas vão tomar conta do mundo, fazendo de qualquer guerra atómica uma mera brincadeira.
Chegou agora o dito milagroso…e a recessão …sendo em 2012 o único País no Mundo com ela atrás…
E quem vai comandar o resgate, o governo em gestão, o Presidente da Nação distraído diria chutando ao lado, a oposição… o diz e o desdiz que chegamos à conclusão não saber o que dizer e pensar… De quem é a culpa ... A culpa essa costuma morrer quase sempre solteira … Será da Merkl…
Queríamos o quê nós??
Que a União Europeia preterisse os interesses do capital financeiro envolvido na onda especulativa em detrimento dos gastadores desenfreados…
E nos entretanto manipularam-se os ratings… Entretanto os grandes bancos Ingleses ou franceses financiam-se escandalosamente junto do Banco central Europeu a taxas de juro de 1% para depois adquirirem divida publica cobrando 6, 7 e até 8%ao estado Português …
faz lembrar que Agiotagem era crime.
Fomos confrontados com processos de extorsão por causa dos juros sobre a divida pública… E agora ....
Instalou-se e vai ficar pelo menos 10 anos ... e também trouxe o medo e estamos à sua mercê ... Os agentes do medo... "Nada há tão contagioso como o medo." Teremos nos próximos tempos um país quase alucino-génio???…
Caro JLPA . . . !
Belo ensaio . . . !
De gestão . . . !
De "malguinhas" . . . !