Logótipo XL |Automotor |Classificados |Correio da Manhã |Destak |Jornal de Negócios |Máxima |Record |Rotas & Destinos |Semana Informática
OPINIÃO

Com o pé na vida

05 | 06 | 2011   19.44H
João Malheiro

Desço o elevador do meu prédio, num ritual diário. Olho para a direita. Como é possível? O talho do senhor Manuel fechou. Avanço para a esquerda no trilho de uma bica revigorante. Como é possível? O supermercado da avenida fechou. Que país é este? Tantas portas se fecham, tanta gente se fecha no desespero de uma vida hostil.
Um dos telefones toca. Uma mensagem faz apelo à minha generosidade financeira. Já se pede dinheiro emprestado por SMS. É uma forma ainda mais envergonhada de dizer aflição. Na papelaria, poucos metros adiante num trajecto depressivo que já nem o café mitigou, um magote de gente simples não compra o jornal, mas adquire jogo com vontade frenética de ganhar a batalha do infortúnio.

E o que se ouve nos passeios públicos? Gente que se queixa da vida, gente que se diz decepcionada. Também gente que fala de bola, que encontra na bola o único intervalo de higiene emocional noutra manhã com novos traços castigadores. Falam altissonante? Anúncio de crispação, anúncio de revolta. Felizes, ainda assim, aqueles que se escondem atrás do Cristiano Ronaldo, atrás do seu Benfica, do seu FC Porto, do seu Sporting. Não há bola para a gente jogar o jogo da vida? Há sempre bola para a gente dissimular o jogo da vida.

O passeio continua, a reflexão também. De ouvidos atentos e alma rasgada. Que país é este? Vale a pena continuar? Ou dizer como Torga que «um passo a mais neste caminho de lucidez impiedosa e fico sem pé na vida».

© Destak
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE