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OPINIÃO

Troika

03 | 07 | 2011   20.21H
João Malheiro

“Se cá nevasse, fazia-se cá ski”. Dava para ouvir a Lena, há anos, voz e também alma dos “Salada de Frutas”, grupo rock do final do início da década de 80. “Se o Eusébio ainda jogasse”, ouvia-se também na mesma canção. O Eusébio já não jogava, o José Águas também não.

Há dias, a Lena d’Água lançou um livro na catedral vermelha. Chama-se “Meu Pai Herói”. Claro que a velha amiga mo autografou. “Malheiro, és grande, pá!” foi o que escreveu. Eu, Leninha? Grande, grande mesmo, era o teu pai. António Lobo Antunes, no prefácio da obra, deixa em letra de forma que José Águas “era a elegância, a inteligência, a integridade, o talento e, ao pensar em escrever, o meu desejo era ser o Águas da literatura”.

Lobo Antunes não esconde que “teria sido um privilégio conhecê-lo”. Perdoe-me Lobo Antunes a soberba, mas nesse particular, enormíssimo particular, levo-lhe uma vantagem pungente. É que eu privei de perto com José Águas, almocei amiudadas vezes com ele, ouvi-lhe histórias, absorvi-lhe desabafos, contabilizei-lhe ledices. Ao nosso lado, quase invariavelmente, o Eusébio, que não olhava de frente o seu grande capitão. Sinal de respeito, respeito incontido.
Pai da Lena e do Rui, afinal a magnífica troika Águas, o melhor dianteiro da história centenária do Benfica foi despedido do seu clube no trágico consulado de um tal Vale e Azevedo. Quando assumi, depois do triunfo eleitoral de Manuel Vilarinho, as funções de director de Comunicação do Benfica, a minha primeira intervenção pública foi o anúncio da reintegração de José Águas nos quadros técnicos do clube. Nesse momento, senti todo um Benfica dentro de mim, toda uma justiça a sair-me dos poros.

Um mês depois, José Águas morreu, no frio daquele Dezembro nefando. Não tardei a escrever: “Ave de rapina, a sua obra foi mesmo um diário de golos. Bicampeão europeu. Barcelona e Real Madrid, nas duas jornadas épicas, experimentaram a sua fome goleadora. Ergueu as Taças do capitólio. Ficaram gravuras desse canto heróico das papoilas saltitantes, era ele a mais saltitante das papoilas. Que bom seria ver José Águas regressar um dia, uma hora, um minuto que fosse, para saber que não morreu”.

© Destak
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